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Marcelo Galvão fala sobre O Matador, grande estreia da Netflix

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Diretor de O Matador, que estreia no próximo dia 10 no catálogo da Netflix mundial e é o primeiro longa brasileiro produzido por eles, o carioca Marcelo Galvão, radicado nos Estados Unidos, estreou seu longa no 45º Festival de Gramado. PREVIEW bateu um papo exclusivo com ele, que falou sobre a opção de rodar um filme para o streaming, sobre a paixão pelo bangue-bangue, suas referências, o uso de armas verdadeiras e também de preconceito. De quebra, ainda contou que Danny Trejo (Machete), ator com mais de 300 produções na carreira e conhecido pelos personagens violentos, era o escolhido para interpretar o Gringo. Confira a conversa ilustrada com fotos EXCLUSIVAS dos bastidores da produção.

O cineasta Marcelo Galvão recebe o prêmio de Melhor Trilha Sonora para O Matador

PREVIEW – Depois da polêmica no Festival de Cannes, envolvendo Pedro Almodóvar e Will Smith, a questão dos filmes lançados por streaming (não nos cinemas) disputando prêmios em festivais está longe de acabar. Você pensou nisso em algum momento?
MARCELO GALVÃO – No início, quando a executiva da Netflix me chamou para fazer a proposta, perguntei logo se não iria para o cinema. Ela explicou que se o filme fosse para as salas, não poderiam entrar com o investimento integral. Depois, pensei que 90% dos filmes não vão para o cinema. Dos 10% restantes, uma pequena parcela fica em cartaz uma ou duas semanas no máximo.

Sim, o eterno gargalo do mercado exibidor…
Sem contar que estamos falando de lançar em uma plataforma que chega em 190 países no mundo, um filme falado em 20 idiomas. E ainda tem o privilégio de ser o primeiro original brasileiro, o glamour, a propaganda em volta … Caiu a ficha e vi que era um bom negócio.

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Diogo Morgado, em cena de O Matador (2017)

Foi sua terceira vez no Festival de Gramado, mas com um violento e bem distante dos outros lá premiados, como a aventura Colegas e o drama A Despedida. O que te motivou a fazer um filme tão diferente?
Trabalhei um outro universo que eu queria trabalhar, que era a ação. Em uma viagem que fiz uma vez para Los Angeles, há uns oito anos, o Fernando Meirelles (Cidade de Deus) fez um ponte com um agente influente, de astros como Robert De Niro, Martin Scorsese …

E aí, o que rolou desse encontro?
Ele viu que eu tinha ganhado prêmios e tal, mas abriu logo o jogo. Disse que para eu entrar naquele mercado, a forma mais fácil seria com filme de ação. Fiquei com aquilo na cabeça. Na verdade, já estava antes e veio a coisa de explorar o cangaço de uma forma mais crua, mais natural e com uma roupagem pop. Você pode ser denso, visceral, mas pode ter planos abertos, grandiosos, usar drones, cavalos galopando, sabe? Nada de novela, planos fechados etc.

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Equipe de O Matador (2017), de Marcelo Galvão, no Festival de Gramado 2017

Prêmio de melhor fotografia e melhor trilha sonora em Gramado, O Matador tem uma abertura de grande impacto visual e a música só aumenta essa percepção…
A trilha é do Ed Côrtes. Agora, a canção inicial sabe quem está cantando? Minha irmã, Fernanda Galvão. Eu já tinha tentado outras vezes fazer isso, mas as músicas nunca combinavam e dessa vez deu super certo.

As imagens são realmente bonitas e o lugar…
Precisamos de autorização de um Cacique para poder filmar lá. Cimbres é uma aldeia indígena ali na região da Pesqueira, em Pernambuco, a 200 km de Recife. Um ano antes, eu passei cerca de 15 dias conhecendo a região com a equipe, para ver o local que eu queria rodar o filme.

o-matador-marcelo-galvao-2017-netflixE esse elenco  multinacional, que casting foi esse?
Eu conheci a Maria de Medeiros (portuguesa que atuou em vários filmes, como Pulp Fiction) e o marido dela no Festival de Madri, quando apresentava o A Despedida. Rolou uma empatia, ficamos próximos e aí acabei enviando o projeto. Desde o início, ela se mostrou muito solícita, mas complicado foi conseguir encaixar na agenda lotada dela.

E tem também o português Diogo Morgado, contratado para fazer um cangaceiro nordestino. Como assim!?!
Foi uma aposta que eu fiz. Ninguém acreditava que daria certo, mas ele fez um teste para mim, via skype mesmo. Mandou muito bem e vi logo o sotaque e a voz que eu queria.

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Etienne Chicot, Maria de Medeiros, Marcelo Galvão e Igor Cotrim, no set de O Matador (2017)

Mas teve aquela história do cavalo com o Diogo, né, pode falar sobre ela?
Pois é, desde o início o Diogo havia afirmado montar e eu tinha entendido que ele andava bem a cavalo. Porque eu precisava disso no filme. Só que aí, quando eu deixei ele com os treinadores no laboratório, eles chegaram depois para mim e falaram que ele deveria ter algum trauma de queda. Isso me preocupou demais. Mas ele treinou e ensaiou bastante. Chegamos a usar dublê, mas no final já não era mais necessário. Acabou sendo até bom para ele.

Vilão é uma palavra complicada em O Matador, mas existe um vilão gringo bem definido?
Para fazer o vilão francês, eu entrei em contato com o fotógrafo argentino Ricardo Aronovich, que fez Desaparecido – Um Grande Mistério e O Baile (de Costa-Gravas e Ettore Scola, respectivamente), uma referência para vários fotógrafos brasileiros. Ele me disse que tinha um ator francês muito bom, que havia trabalhado com Luis Buñuel. Só que ele já tinha mais de 90 anos, íamos ficar num lugar super simples, no meio do sertão… Não daria certo. Eu precisava que o personagem tivesse uma certa virilidade e ali na casa dos 60 anos. Foi aí que entrou o Ettienne Chicot, que tinha feito O Código DaVinci (2006) e foi indicado por uma amiga minha moradora de Paris.

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O Matador (2017), de Marcelo Galvão.

Sobre o elenco daqui …
Além dos brasileiros já conhecidos, trabalhamos com muita gente local e fizemos muitos testes. O menino Jonas (abaixo), que faz o personagem Cabeleira quando pequeno, foi incrível. Nunca tinha ido ao cinema, nenhum contato com dramaturgia, mas era uma coisa nata. Eu fazia um plano com ele e a equipe toda parava para assistir. Muito bom ele, sabe, verdadeiro. Gostaria até de poder dar sequência para permitir uma possível carreira dele.

Agora, e aquele papo de ter o icônico Danny Trejo no elenco? Fala também do manuseio de armas no filme, que é sensacional.
Pois é, o personagem era para ser gringo e eu queria o Trejo em O Matador, mas o cachê dele era alto e ele demorava para responder. Ou seja, a nossa comunicação não estava boa. Aí, comecei a pesquisar sobre gun spinning, para ter alguém que girasse a arma como nos filmes de faroeste. Cheguei no Will Roberts, que estava no Guiness (livro dos recordes). Entrei em contato e deu super certo.

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Marcelo Galvão e o jovem Jonas, no set de O Matador (2017)

Mas esse capricho com as armas foi preciosismo para o filme ou você já tinha alguma ligação com elas?
Apesar de ser carioca, eu cresci em Campinas, no meio do mato. Minha família tinha armas e eu sempre tive contato com elas. Aquela coisa de caçar quando era pequeno, sabe?

Entendi. E as armas do filme são características, né?
Sim! Eu queira fazer uma coisa muito fiel a época. Como o rifle de papo amarelo (clássica Winchester de 1873), que os cangaceiros usavam. Só arma antiga. É complicado mexer com arma, principalmente, no Brasil. Aí, eu trouxe um cara que era responsável por todas elas, que ficavam soltas para o elenco entrar em contato. Usei muito festim e também balas de verdade, como nas cenas da abóbora.

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Marcelo Galvão conversa com Will Roberts (de preto), Diogo Morgado e Etienne Chicot (de costas), no set de O Matador (2017)

Então o Will que fez o personagem Gringo foi também a pessoa que orientou a turma no manuseio delas?
Isso mesmo. Eu até queria fazer uma cena tipo do O Bom, O Mau e o Feio (1966), naquela cena que ele chega na loja, mas acabei desistindo.

Mas ainda assim o faroeste de Sérgio Leone está presente. Faz parte das suas referências no gênero?
Sim. Bangue bangue italiano. Assistia muito com meu avô … (abriu um sorrisão com a lembrança) tem também Tarantino, sem dúvida, e Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), que não é bem um western. Até Moulin Rouge (2001) usei como referência.

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Cena de O Matador (2017), de Marcelo Galvão

E em termos de Brasil, as produções com cangaceiros …
Revi também os filmes de Glauber, mas não queria nada parecido, por exemplo, com a morte do Corisco (Othon Bastos, em Deus e o Diabo na Terra do Sol / 1964) ou aqueles diálogos. Você pensa logo: o cangaceiro não falaria assim. Não cabe na boca do personagem. Eu busco a verdade do personagem. No filme, isso é mais visceral mesmo.

Quanto tempo você levou para realizar O Matador?

Eu rodei em cinco semanas.

Rápido. Foi assim nos outros trabalhos?
A Despedida (2014) levou 10 dias e Colegas (de 2012 e com atores Down) levou seis semanas. Sou rápido. Tento fazer sempre assim porque é muito caro. Cada dia que passa mais caro fica o projeto.

o-matador-netflix-marcelo-galvao-destaqueDiferente dos outros, esse tem os efeitos especiais…
Para economizar, pra fazer rápido, não ter que voltar, trocar roupa etc, porque era um filme grande, eu resolvi fazer os tiros, por exemplo, na pós (produção). Os tiros eram dados, os atores faziam os movimentos de quem havia levado o tiro, caíam no chão … Depois, na pós, eu aplicava o sangue, os pedaços saindo … Foi uma opção porque se eu fizesse em set, não conseguiria entregar no prazo que precisava e com o capital recebido.

Ser rápido é bom pra equipe também…
Sim. Tem um trabalho que pretendo fazer nos moldes de A Despedida, em poucos dias. E não é trabalhando de madrugada não. Imagino que leve uns 10 dias. Isso, começando às oito da manhã e terminando às quatro da tarde. Nada de estresse, de varar a noite.

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Marcelo Galvão e equipe de O Matador (2017)

A publicidade te ajudou com isso?
Sim. Porque filmei muito. Se você olhar meus filmes, vai ver que eu faço muitas câmeras. Gosto muito disso e acho que a publicidade me ajudou neste sentido, na coisa da estética, da qualidade da produção. Óbvio que tem coisas nela que eu abomino, mas as coisas boas, como o bom gosto, o capricho.

E você acredita que existe algum preconceito em relação ao seu cinema por essa razão?
Sem dúvida. Por eu ter vindo dela, já sou mal visto. Tem gente que não quer saber daquele trabalho. Já rotula como publicitário que está querendo ganhar o lugar do pessoal do cinema. Fernando (Meirelles) sofreu muito.

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Marcelo Galvão e equipe no set de O Matador (2017)

E próximos filmes, pode falar algo?
Aprendi a ter vários projetos porque em alguma hora um deles pipoca. Tenho Poucos Dias, um drama que se passa numa ilha no Atol da Rocas, em 1920, que eu comentei que pretendo rodar em 10 dias e será meu primeiro filme em inglês. Estou selecionando o ator gringo. E tem o Colegas 2, que deve ser o filme de 2018, uma parceria da Gatacine e Yourmama com a Globo Filmes.

O elenco será o mesmo, pode falar alguma coisa da história?
Sim, teremos o mesmo trio, Ariel, Rita e Breno. Só que agora serão seis protagonistas, teremos outros atores Down, e será um novo road movie que se passa no Uruguai. Vai ser divertido e eu estou super empolgado. O Fernando Meirelles, inclusive, vai ser o diretor artístico da Globo.

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Um cenário único para O Matador (2017), de Marcelo Galvão

O terror está crescendo no Brasil, algum projeto no gênero?
Tenho Fábulas, uma coisa meio Guillermo del Toro, bem fantasia, grande e caro. Foi o primeiro roteiro que escrevi. Acho que agora posso tentar ver se encontro produtoras.

O filme vai estrear agora, dia 10, o que a Netflix achou do filme, dos prêmios, como foi a relação com eles?
Eles adoraram. Desde o início, o tratamento foi muito cordial, de muito respeito, não interferiram no processo criativo do filme, na montagem, me deram todo o suporte. Me chamaram no escritório de Los Angeles para apresentar a campanha de marketing do filme e, agora, me trouxeram para o Brasil para participar de um encontro dos principais produtores brasileiros e o Chief Content Officer Ted Sarandos para uma conversa sobre investimentos em narrativas locais e a evolução do cenário de entretenimento no Brasil. Além disso, vai rolar uma festa organizada por eles para celebrar a estreia. É um tratamento muito especial.

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Ted Sarandos, da Netflix (de azul, sentado ao centro) e produtores brasileiros, em 2017. Foto de Flaviano Vaz Fotografia

Além dos nomes já citados, o elenco conta ainda com Marat Descartes,  Thaila Ayala, Deto Montenegro, Daniela Galli, Paulo Gorgulho, Maytê Piragibe, Thaís Cabral, Nill Marcondes e Mel Lisboa.

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