ENTREVISTAS ESTREIAS

Marina Person fala da personagem suicida de Canção da Volta

Canção da Volta é o primeiro longa de ficção de Gustavo Rosa de Moura (Piadeiros) e a primeira protagonista da também cineasta Marina Person (Califórnia). É uma obra intimista que não está de olho no grande público, mas do cinéfilo mais exigente. A trama ilumina uma família que precisa se reestruturar depois que a mãe tenta se matar. Marina está entregue como essa mulher desequilibrada, que passa a ser objeto de escrutínio do marido (João Miguel), um cara do bem que segura a barra, mas entra em uma espiral obsessiva ao investigar o passado dela. Na entrevista a seguir, Marina fala dos desafios de estar em frente à câmera.

Depois de Califórnia, que é um filme solar, de geração, você surge como atriz em uma obra mais íntima e densa, da qual também é produtora. Como nasceu esse projeto?

MARINA PERSON – Quando comecei a namorar o Gustavo, ele tinha uma produtora que fazia muitas coisas para museus e era ligada às artes plásticas, mas ele já tinha vontade de tocar projetos para o cinema. Quando ele se mudou para São Paulo, abrimos a Mira Filmes com a Carmem Maia, por isso sou creditada como produtora. Aí começamos a batalhar pelos projetos. O Califórnia foi um deles, feito em coprodução com a Lauper Filmes, que é da minha mãe. É tudo em família por aqui, somos nepotistas (risos). Conheço esse projeto desde a ideia, que era contar a história de uma suicida que tem de encarar a vida depois de uma tentativa frustrada. Queremos explorar como essa família se refaz depois de uma barra pesada dessas. É uma ideia do Gustavo e ele não escreveu para mim, mas como me interessei pela personagem fui me articulando para interpretar.

Como se preparou?

Não sou uma atriz experiente, mas fiz o CPTzinho do Antunes (escola de teatro de Antunes Filho) e tive uma pessoa que me ajudou. Havia feito umas coisas como atriz, mas poucas. A principal foi em Bens Confiscados, do Carlos Reichenbach, em que tinha várias cenas com diálogos. Sempre me interessei pela atuação, tanto que sou uma diretora muito conectada ao ator.

O quanto foi pesquisar sobre a questão do suicida?

O suicídio é um tabu em qualquer sociedade, em qualquer religião. Durante a pesquisa, me deixei fascinar por histórias de suicidas famosos e me envolvi especialmente com a (poeta e romancista) Sylvia Plath. Li um livro interessante que se chama O Deus Selvagem, de A. Alvarez, que fala sobre as características do suicida e desenvolve a teoria de que há pessoas que tentam se matar, mas não querem morrer, o que se aplica à Sylvia Plath. Ele defende que ela não queria morrer, que era muito mais um pedido de socorro.

Sua personagem, Júlia, também parecer estar pedindo socorro.

Ela é uma mulher que não tem domínio sobre suas próprias emoções. Já o Eduardo, seu marido, é um cara que está sobre o controle de tudo, é quem segura as pontas da família, afinal eles têm dois filhos. Eduardo tenta evitar que tudo se desmorone, mas ao longo do filme a coisa vai mudando de figura.

cancao-da-volta

É seu primeiro grande papel como atriz e há cenas intensas de sexo e nudez. Foi complicado de filmar?

Foi um choque depois de filmar uma história solar como Califórnia, pois o intervalo entre os filmes foi muito curto. Só tive um mês para desmamar do Califórnia. Dá um vazio quando você termina um processo de direção, porque você sai da onipotência absoluta e de repente ninguém quer saber o que eu penso, se quero alguma coisa? (risos) Não dei nenhuma opinião sobre a direção, confio no taco do Gustavo, e fiquei me questionando como há diretores que atuam em seus próprios filmes. Não consigo imaginar. Tinha de entender quem era aquela mulher que não tinha nada a ver comigo, fiz exercícios para buscar essas camadas de sombra que todo mundo tem e fazê-las aflorar. Na cena de nudez estava tensa, mas decidi desencanar e foi libertador. A de sexo é mais difícil (risos), e tem uma hora que você tem de ir lá e fazer, não dá para ficar pensando muito.

A música no filme é tão marcante quanto em Califórnia. Como foi a escolha da trilha?

Nessa parte dei bastante opinião (risos). A Canção da Volta, da Dolores Duran, sempre esteve no projeto. Achei ótima a ideia de usá-la na cena da boate, em que o casal dança. Na festa da filha há aquele som desconfortável, um batidão dissonante que reflete o sentimento do pai. Escolhemos cada música com todo cuidado.

Há cenas simbólicas, como a do apartamento vazio e da terra na porta.

São imagens do inconsciente do Eduardo, que podem ser interpretadas de diversas formas pelo espectador. Essa é a graça. Havia uma, que ficou fora do corte final, em que uma pedra aparecia no lugar da cama no quarto deles. Entrei no quarto e falei “Como assim, uma pedra?” Sabia que aquele é o meu apartamento? Durante as filmagens, a gente se mudou para o andar de cima, que por sorte estava para alugar. A cena da casa vazia era minha casa, arrancaram luminárias, quadros, foi uma loucura.

Publicidade

Deixe o seu Comentário