ENTREVISTAS MOSTRAS

Marina Person revela segredos de Califórnia em papo exclusivo

O longa Califórnia estreia somente em 3 de dezembro e já começa a colher frutos. Após o Prêmio Redentor de Melhor Ator Coadjuvante (Caio Horowicz) no Festival do Rio, ele chega na Mostra SP 2015 neste domingo, 25, com repeteco nos dias 27 e 29. Cheio de referêncis do passado da cineasta Marina Person, o drama conta sobre uma jovem (Clara Gallo) em plena efervescência dos hormônios, em um período de grandes transformações, tendo que lidar ainda com uma triste realidade que se abate sobre ela e a família. PREVIEW bateu um papo super descontraído com Marina e uma parte dele você pode conferir agora mesmo. 😉

Você contou que ali por volta de 2004/2005 pintou a ideia. Como foi a elaboração do seu roteiro?
Marina Person – Eu meu juntei com mais três amigas daquela época, duas eram super amigas do colégio. A gente se reunia uma vez por semana, ficava tendo ideias, ideias… Aquilo não acabava nunca. Ficava recordando, lendo diário, dando risada de memórias, foto… Era super gostoso. Mas a gente viajava um pouco e aí chamei a Mariana Veríssimo, de fora, para escrever o roteiro. Era a vida de todo mundo, precisava organizar e eu demorei muito tempo para ficar satisfeita. Faltava alguma coisa, tinha muitas referências e um outro clima. Ela trabalhou até o terceiro tratamento. Aí eu chamei um outro roteirista, passou um ano e não deu nada certo.

Parou tudo?
Teve uma momento que a gente ganhou um prêmio, nosso primeiro “dinheiro”. O orçamento era de R$ 3 milhões e ganhamos 800 mil. Eu fiquei uns dois/três anos tentando captar mais e não consegui. Aí veio a ideia de levar para a Mira Filmes (produtora dela) fazer o roteiro com o que a gente tinha. Foi aí que o filme tomou a forma final, com o Chico Guarnieri no roteiro, que é filho do Paulo Guarnieri e neto do Gianfrancesco.

Outro nome famoso?
A gente até brinca que os roteiristas tem pedigree. Mariana é filha do Luís Fernando e neta do Érico. E totalmente sem querer e eu ainda descobri que era apaixonada pelo pai do Chico. Aquela coisa de criança, sabe? Eu só lembro dele galã, lindo.

E a Mariana saiu fora?
Depois do roteirista que não deu certo, ela voltou. Só que para dar essa forma final com menos dinheiro, de cortar coisas, foi mais com o Chico.

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Clara Gallo, Marina Person e Caio Horowicz

Os protagonistas desconhecidos tem a ver com o orçamento ou você queria evitar famosos para causar maior identificação com os personagens?
Eu queria que fossem jovens de 17 anos, a idade no filme. Obviamente por ter sexo e drogas, não podíamos usar pessoas que tivessem essa idade. O Caio (JM) fez 18 em fevereiro e a gente filmou em março as cenas com sexo e drogas etc. Com as cenas de nudez, se colocar uma menina vai ter que emancipar, ou autorização dos pais, um cara do juizado no set, vai ser um inferno. Mas se tivesse alguém famoso com aquela idade, não teria problema. Não passou no meu radar alguém que tivesse o physique e aí eu fiz muitos testes.

E a preparação foi tranquila?
A Clara trabalhou bastante na preparação. Nunca tinha feito nada, totalmente crua, mas é muito intuitiva. Ele já tinha feito uma série para o canal Cultura e ia entrar na faculdade de Artes Cênicas.

Não bateu nenhum grilo na hora do “vamos ver”?
Essa coisa de ter somente eu ali, a fotógrafa e assistente de câmera ajudou. No som, o cara deixou um boom montado e o segundo assistente de câmera ficou no banheiro. Não viu a cena. Fizemos um ambiente íntimo para uma cena íntima. Quando acabou, disse que aquilo era difícil para qualquer ator. Pode ser o mais experiente. Quando fala “tira a roupa”… Eu já entrevistei vários e todos dizem que é difícil.

Então rendeu?
Falei que o nível de entrega deles tinha sido muito legal de ver, para qualquer ator, e agradeci muito. A gente levou um dia inteiro (12 horas), desde a conversa, o baseado… E é pouco quando você pensa no Azul é A Cor Mais Quente (2014), que levaram uma semana e as atrizes não aguentavam mais.

Falando na cena de sexo, ela reserva uma surpresa…
A ideia era dar um impacto mesmo, fazer a música deixar de ser diegética. Testamos várias coisas, mas essa estranheza foi a que melhor teve resultado no teste de audiência. Na sessão no Festival do Rio, o pessoal riu de nervoso, tipo, “como assim?”, meio revoltados. Isso é legal. É um mega anti-clímax.

Tá certo… E como foi essa sua “primeira vez”? (risos)
Foi meio mágico. Não sabia muito bem o que ia dar. Tinha uma insegurança. Por mais que a gente tivesse conversado, você nunca sabe e aconteceu. Você sente. Quando acabou o dia, as pessoas todas sentiram que tinha ficado muito bonita a cena. Funcionou. Deu certo.

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Still de cena do longa metragem ‘ California ‘ , dirigido por Marina Person – Produção Mira FilmesLocal: São PauloData: Março de 2014 Foto: Aline Arruda

De maneira sincera, o roteiro tira o maior sarro com uma parcela de leitores do livro “Na Estrada”, de Jack Kerouac. Você assume não ter lido o livro todo?
Eu só li um pedaço. (rindo) Eu tinha os meus guias, as pessoas que eu admirava, e eu tive a minha fase geração beat. Vou entender o que são esses caras aqui. Não queria passar vergonha quando alguém falasse. Fui atrás e o On the Road é impossível de ler, me desculpa. Se tivesse ido para a Califórnia nos anos 80, mas não fui.

Tem várias sacadas divertidas nos diálogos, são todas suas?
Mariane e Chico são bons de piadas. Alguém me perguntou outro dia sobre o momento que o JM fala da avó não conhecer o cheiro de maconha. Esse talvez tenha sido eu, porque a gente usava incenso para disfarçar o cheiro, é uma coisa muito dos anos 80… botar toalha molhada, incenso de Patchouly. Essas coisas aconteceram comigo.

A trilha é muito boa e imagino que tenha curtido fazer a seleção. Como foi, prazeroso, caro?
As músicas são escolhas minhas, basicamente. A trilha me empolgou bastante. O Zeca (Camargo) foi jantar lá em casa e a gente ficou pirando. Sabia que seria caro, música gringa é caro, é difícil e a gente ficou um ano e meio trabalhando na liberação. Tentei negociar Talking Heads e não deu. Falei direto com o assistente do David Byrne e eles não conseguiram baixar o preço na Warner. Madonna também era caro…

Qual você ia colocar dela?
“Holiday”, na festa. The Clash era caríssimo, The Smiths não autorizou…

The Cure tem mais de uma…
The Caterpillar, Killing an Arab, que é uma música super difícil de usar.

É polêmica, né?
Me perguntaram por quê eu queria, para que, como… Só aurobert-smith-the-curetorizou, eu acho, porque foi justificado com a presença do livro do Camus (“O Passageiro” / Albert Camus) na história. Eles não deixam usar de jeito nenhum. As pessoas usam a música em coisas racistas. Eu escrevi para o Robert Smith (líder do The Cure, ao lado), dizendo que eu li o livro por causa da música…

Disse que era uma cena quente, de amor?
Ele viu. Eu mandei a cena pra ele.

Como assim?!?
Antes de tudo, eu já tinha pedido autorização e um monte de gente de lá sempre perguntava o motivo. Eu expliquei e, na época, disseram que eu poderia usar. Eu ainda não tinha dinheiro para pagar. Quando chegou a hora, disseram não. Aí eu falei: Como assim? Disseram que o Robert Smith não queria de jeito nenhum. Nós mudamos a cena. Aí veio um recado dele, dizendo que poderíamos usar outras e eu nem precisaria fazer a edição que tinha feito em “Killing an Arab” para durar a cena. Então ele viu de fato a cena.

Cara, para você isso deve ter sido bem legal, hein?
Super! Aí negociamos, negociamos e ele deixou. Mas foi difícil. Essa foi a música mais difícil. E eu apelei para tudo que eu tinha. Ele sugeriu várias, tipo lado B assim, e a gente testou todas. Não dava certo. Até do Head on the Door (disco) também, mas ele é de 1985 e não queria colocar porque todos os discos que aparecem no filme são de antes de 1984. A “Killing an Arab” é uma música bem antiga deles, 1976, 78… ele escreveu quando tinha 17 anos.

Incrível como o tempo passa. E a escalação de Paulo Miklos?
Não foi difícil. Eu queria ter um show do Titãs. Procuramos arquivo em VHS, falei com todos eles, porque eu queria uma cena de show. Aí o Paulo me deu uma dica de quem tinha essas imagens, corri atrás e aí acabei perguntando se ele gostaria de fazer o pai da menina. Falei que era careta e ele achou legal.

Falando em caretice, você também se escondia no carro quando adultos te levavam para uma balada?
Total! Quem não? Maior vergonha buscar e levar em festa. Chegar com papai e mamãe, com 17 anos, não dá. Imagina… Até na escola. Aquela cena é real, tanto que todo mundo ri. Quem não passou por isso?

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Caio Blat, Clara Gallo e Caio Horowicz

Seu longa tem muitas sutilezas e você trata da Aids de maneira delicada, nas entrelinhas. Foi assim desde o começo ou achou que poderia ser mais forte?
Tem coisa que você não precisa explicar, tem que sentir. Eu queria que fosse uma coisa sutil, não era um Filadélfia (1993), não queria ver um Tom Hanks no hospital, definhando, morrendo. As coisas acontecem pelos olhos da Estela (personagem de Clara Gallo). Tinha que estar em segundo plano mesmo.

Eu entendi a sua opção, mas será que não “cobrar” o uso da camisinha nas horas mais quentes…
A gente debateu bastante sobre isso. Cada um pode interpretar como quiser, os dois poderiam ser virgens. Achei que ia ficar muito bandeira. Não é um filme para engajar ninguém. Não cabia. Várias pessoas me questionaram. Não faz sentido falar sobre isso aqui. A questão está lá e ela não precisa ser sublinhada dessa maneira.

Seu primeiro longa foi o documentário Person (2007) sobre seu pai e, agora essa estreia na ficção. Gostou da experiência, vai repetir?
Sim. Estou elaborando. Tenho um projeto para cada um dos atores, como protagonista.

Olha, que legal! …
São talentosos, bons de trabalhar e deu super certo a nossa parceria. Vou amadurecer mais para poder detalhar. Eles devem participar um no filme do outro, mas eu tenho a impressão que vou ser desses diretores que tem “musos inspiradores”…

Como Almodóvar, com Penélope Cruz e Antonio Banderas, e…
É, sei lá, tipo Jean-Pierre Léaud, com Truffaut, ou Joaquin Phoenix, com James Gray. Tem pessoas que trabalham sempre com os mesmos. (risos)

É isso, pessoal! Não esqueçam que tem mais conversa exclusiva com Marina Person na edição de novembro da sua PREVIEW.

Onde e quando assistir CALIFÓRNIA na Mostra SP 2015
25/10 – 21:20 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1
27/10 – 18:40 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 6
29/10 – 17:20 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2

PREVIEW está no evento a convite da organização. Clique em Mostra SP 2015 – Mostra Internacional de Cinema em São Paulo para ver dicas, notícias anteriores, entrevistas etc.

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