ENTREVISTAS ESTREIAS

Michel Hazanavicius fala sobre O Formidável e Godard

michel hazanavicius festival do rio thumb

Ganhador do Oscar de melhor diretor por O Artista (2011), que venceu outras quatro categorias, Michel Hazanavicius esteve no Festival do Rio para divulgar O Formidável (2017), produção baseada na autobiografia de Anne Wiazemsky (1947-2017), ex-esposa do cineasta Jean-Luc Godard. A história se passa entre os anos 1967 e 1970, período em que o diretor lançara A Chinesa (1967) e, depois, mergulharia de vez na ideia de fazer um cinema militante, negando, inclusive, sucessos que o projetaram anteriormente. PREVIEW conferiu o divertido longa, que estreia neste dia 26 de outubro, e conversou com Hazanavicius. Simpático, ele foi zero de estrelismo para falar de seu filme sobre alguém com fama de pedante. Confira a nossa conversa exclusiva!

michel hazanavicius festival do rio 2017

Michel Hazanavicius apresenta filme ao público – Cine Odeon / Festival do Rio

Godard é um figura emblemática do cinema mundial e uma parcela dos cinéfilos o considera intocável. Quando e como surgiu a ideia de fazer um filme que mexe com esse ícone?

MICHEL HAZANAVICIUS – A vontade veio, na verdade, quando eu li o livro escrito por Anne (comenta com pesar o recente falecimento dela), mas eu não pensei, realmente, em fazer um filme sobre Jean-Luc Godard. Achei o conteúdo muito tocante, original, soube que a esposa dele tinha algumas raízes na comédia. Achei que o formato poderia ser interessante, poderia estar se referindo aos primeiros trabalhos de Godard, com uma forma bem livre de narração, com muito distanciamento. Achei que era muito engraçado.

Você conhecia esse lado dele?
Como todo mundo, eu sabia que no final dos anos 1960 e início dos 1970 ele tinha se tornado um tipo de diretor muito estranho, obscuro, e tinha sido tão famoso e brilhante antes disso. Mas eu não sabia detalhes. Foi muito interessante.

Então foi a história de amor que atraiu a sua atenção?
Sim, naturalmente, mas não apenas isso e sim a combinação de três coisas: a comédia, o formato e a história de amor. Essa, em especial, me atraiu muito porque todas elas terminam pela mesma razão. Primeiro um muda pela primeira vez e outro já não o reconhece mais. Você se casa com uma pessoa, passa por inúmeras coisas, e depois ela não é mais a mesma. E não muda por conta da idade, mas porque pessoas mudam. No fim das contas, você está com uma outra pessoa ao seu lado. E assim terminam as histórias. Geralmente, isso leva um tempo.

É verdade. Acontece com frequência. E no filme isso acontece rápido, essa mudança…
Neste caso foi mais simples, porque Jean-Luc Godard decidiu muito conscientemente que queria mudar por causa da revolução. E ele mudou de uma maneira muito radical e em um curto espaço de tempo. Pareceu pra ele que, mudando, teria que destruir muitas coisas a sua volta e a ele mesmo. Então achei muito tocante e muito original por esta razão.

o-formidavel-2017

Godard (Louis Garrel) durante protesto em O Formidável (2017), de Michel Hazanavicius.

E foi fácil negociar os direitos da adaptação?
Anne foi muito gentil e, inicialmente, recusou. Não queria vender os direitos do livro e só mudou de ideia quando entendeu que eu estava querendo fazer uma comédia. Aí, ela disse sim.

Além de dirigir, você também escreveu o roteiro. Como foi a experiência de adaptar o livro?
Sim. O livro não é tão engraçado, literalmente, há espaço para a comédia, mas não é um livro de comédia.

E você teve liberdade para mudar alguma coisa, criar?
Quando nos encontramos, ela me disse para eu fazer o que quisesse, que eu escrevesse o roteiro e quando eu terminasse o filme, que eu avisasse. Se ela gostasse, deixaria usar o nome dela. Caso contrário, teríamos que encontrar outra solução.

Nossa! E o que ela achou logo que viu? 
Ela adorou. Ficou impressionada e disse, realmente, reconhecer Jean-Luc Godard. Eu fiquei muito orgulhoso e feliz por ela ter gostado. (os olhos brilham e ele sorri) Na verdade, ela me fez o melhor elogio: disse que eu tinha feito uma comédia de uma tragédia. E era a minha intenção.

Foi um corte ou a versão final?
Ela viu o longa inteiro e por quatro vezes.

Bem, você disse que o livro não é uma comédia, que você teve liberdade… aquelas sequências curiosas envolvendo os famosos óculos escuros de Godard são verdadeiras, imaginação sua?
Verdadeiras. Mas eu mudei alguma coisa. Acontecem umas duas vezes no livro, eu queria fazer piada disso, e Anne acabou me contando que aconteceram mais vezes. (risos)

o-formidavel-2017

Louis Garrel e Stacy Martin, em O Formidável, de Michel Hazanavicius.

Fale um pouco sobre Louis Garrel. Ele chegou com um Godard pronto na cabeça?
Ele conhecia o diretor desde criança, porque seu pai (Philippe Garrel) também fazia filmes em 1968 e Godard era importante para a família. Garrel tinha esse tipo de contato com filmes franceses, faz parte de uma nova geração de atores franceses e, claro, tinha sua própria opinião sobre ele.

Então você interferiu, como foi esse processo?
O roteiro estava escrito, tínhamos de segui-lo. Ele opinava na abordagem como ator e nós trabalhamos juntos. No começo, ele não queria fazer uma caricatura, não queria imitar a voz ou colocar uma peruca, mas eu encorajei e ele fez uma personificação. Acho que ele trouxe bastante sinceridade e nós sempre queremos que o ator defenda seu personagem.

Existem muitas situações embaraçosas na história. O humor do seu filme alivia esses momentos para o público, diante das tensões provocadas por Godard. Foi realmente assim ou foi coisa sua?
Transformei muitas coisas em humor. Eu trouxe mais comédia e, talvez, tenha sido mais sério em muitos casos. Eu procurei fazer um filme leve, mais agradável, mais perto da realidade… É importante que as pessoas possam reconhecer ele no filme, fazendo um bom retrato de Godard.

Fica claro que Godard rejeita o sucesso, a comédia, e passou a defender um outro tipo de cinema. Qual é a sua impressão sobre esse tipo de pensamento?
Eu adoro as comédias, mas não porque eu adoro rir. Eu amo comédia porque, primeiro, acho que nós fisicamente necessitamos rir. É um gênero muito nobre. Eu, realmente, respeito os autores de comédias, comediantes… (ele dá uma parada)

Sim, existem mestres do gênero…
É muito estúpido rejeitar e há algo muito esnobe nisso. É muito raro que uma comédia seja indicada para uma premiação, participe de festivais… Porque quando você pensa nos clássicos, nos filmes que você realmente ama, você vai lembrar de Billy Wilder, Blake Edwards, as comédias italianas, realmente, são obra-primas. Não deveríamos ser tão esnobes.

o-formidavel-2017

Louis Garrel e Stacy Martin, em O Formidável (2017), de Michel Hazanavicius.

Agora, falando de Rio de Janeiro, não é sua primeira vez aqui. Afinal, você rodou Agente 117: Rio Não Responde Mais (2009), com Jean Dujardin no elenco…
Sim. Eu filmei no Rio e ele tinha que ser filmado aqui. É um país muito cultural.

E pretende filmar aqui novamente, algum projeto novo?
Eu adoraria voltar para filmar, por que não? Eu só preciso de um bom roteiro. Mas meu próximo projeto será rodado na França. É muito original e uma comédia inteligente. Espero poder exibir aqui na próxima vez.

Eu estava no Festival de Cannes de 2014 e vi, infelizmente, seu filme The Search ser vaiado na sessão para a imprensa. Ele acabou nem sendo lançado aqui…
O filme acabou sendo bloqueado pela companhia que tinha os direitos e desde então outro distribuidor precisa esperar a liberação. Parece que somente em junho (2018) será lançado nos Estados Unidos.

E como você se relaciona com essas reações, é algo que te preocupa… bilheterias, espectadores?
Realmente, não trabalho para críticos, mas para o público. Normalmente, trabalho com filmes populares, feitos para o público mesmo. Quando eles veem, e não veem sempre, eles gostam. São meus “melhores amigos”. Eu faço filmes para as pessoas.

Fotos do Festival do Rio são de Davi Campana/R2

Publicidade

1 Comentário

Deixe o seu Comentário