ENTREVISTAS ESTREIAS

O Rastro: J.C. Feyer fala sobre seu climático filme de terror

Mais de 4 mil pessoas passaram pelo estande de O Rastro na Comic Con Experience, realizada em dezembro passado na cidade de São Paulo. O trailer foi exibido em um auditório para 3 mil pessoas e terminou ovacionado. No estande, o público participava de uma experiência de imersão em uma réplica do hospital desativado que é tanto cenário quanto personagem do primeiro longa do diretor João Caetano Feyer, ou J.C. Feyer. O cineasta diz em entrevista à PREVIEW que a forte campanha de lançamento pretende quebrar a barreira entre o brasileiro e o terror nacional.

Feyer não se conforma que a audiência média não ultrapasse os 30 mil espectadores, enquanto as produções do gênero americanas são sucesso por aqui. “Nosso estande foi eleito um dos cinco melhores da Comic Con desse ano”, conta. “O visitante recebia um avental hospitalar e uma pulseirinha de identificação antes de entrar no labirinto de corredores e tomar uma série de sustos até alcançar a saída.” O hospital do filme é real. A equipe filmou em uma ala abandonada da Beneficência Portuguesa, um prédio do século 19 localizado no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. É ali que o médico João (Rafael Cardoso) deve coordenar a remoção de pacientes do hospital, prestes a ser desativado. Só que durante a transferência, uma menina de 10 anos desaparece. Na busca pelo paradeiro dela, João mergulha em um universo obscuro, onde o sobrenatural e o mundano se confrontam. Leandra Leal interpreta a esposa grávida de João e o elenco ainda tem nomes como Felipe Camargo, Cláudia Abreu e Jonas Bloch.

“O mais incrível é que a Beneficência passava pelo mesmo processo do hospital do filme”, explica o diretor. “Estava em estado de depreciação, com uma área enorme desativada e seria fechado. O genitor ficava espremido em um canto e o andar vazio tinha cocô de morcego e de pomba.” A produção fotografou tudo, para depois limpar o espaço e recriá-lo com sujeira falsa. “Minha vontade era filmar com a câmera na mão, mas quando me deparei com a fachada antiga, o piso de ladrilho hidráulico, a escadaria e o vitral, soube que tinha de filmar planos abertos, longos, que mostrassem o hospital na simetria que ele já tem, na sua atmosfera, e assim trabalhar mais na atuação dos personagens do que na atuação de câmera. Mudei toda a minha concepção de filme.”

SONHO DE CRIANÇA

Pernambucano nascido em Olinda, J.C. Feyer mudou para o Rio de Janeiro aos 10 anos de idade. Começou a carreira ao lado do cineasta Júlio Bressane, de quem foi assistente de direção em Dias de Nietzsche em Turim (2001) e Filme de Amor (2003). “Bressane é um grande mestre e me abriu os horizontes da criação, é um cineasta independente acostumado a trabalhar com menos recursos.” Já a meticulosidade ele diz ter vindo da convivência com Vicente Amorim, diretor de Um Homem Bom (2008) e Corações Sujos (2011), de quem se tornou amigo e compadre – um é padrinho do filho do outro. “Vicente é oposto do Bressane, tem uma pegada de filmes mais encorpados e gosta de se preparar muito.” O terceiro mestre é do ramo da publicidade, Paulo Vainer. “Ele é um fotógrafo de still e de filmes, que preza muito pela estética, a estética da luz, do enquadramento. Essas três pessoas foram muito importantes na minha formação”, diz.

Feyer é diretor publicitário há 15 anos. Aos 38 anos, tem quatro filhos, com idades entre 18 e 5 anos. “A vida começou muito cedo para mim, então você se depara com caminhos que saem da rota principal do seu âmago. Entram a responsabilidade, filhos, dinheiro, uma coisa puxa a outra e nos afasta daquilo que a gente gostaria de ser quando era criança, então é importante não esquecer aquele sonho mais puro e tentar voltar para ele”, comenta. “Tinha 14 anos quando assisti a Cidadão Kane e tive certeza de que queria ser cineasta, mas a vida tem esses desvios e cada um deles me deu muita bagagem.” Em 2006, ele venceu o AXN Film Festival com o curta Balada das Duas Mocinhas de Botafogo, que concorreu com mais de 500 curtas da América Latina e foi assistido por 11 milhões de pessoas quando exibido pelo canal AXN.

Faz mais de sete anos que Feyer, a produtora Malu Miranda e o roteirista André Pereira decidiram filmar um terror psicológico. “Gosto muito mais do terror em que a pessoa perde o controle sobre si própria do que do terror de monstro e sangue”, afirma. O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, foi a grande referência. O primeiro dos quatro roteiros que escreveram antes de O Rastro se passa em uma fazenda de eucalipto, onde um homem está para se recuperar de um transplante de coração, até que coisas estranhas começam a acontecer e ele fica incapaz de sair do local. “A trama tinha um jeitão americano e queríamos um filme brasileiro.”

Fã confesso de Deixa Ela Entrar (2008), de Tomas Alfredson, o diretor explica o sucesso da produção nos Estados Unidos por ser um filme sueco. “A atmosfera sueca despertou o interesse do espectador, que foi transportado para uma realidade diferente. Por isso, jogamos todos os outros roteiros fora e começamos tudo de novo”, revela. “O Rastro é um terror psicológico, mas é também um drama denúncia, porque nossa realidade é muito mais assustadora do que qualquer fantasma. A condição dos hospitais, o que as pessoas passam para receber o atendimento básico, isso sim é assustador.”

J.C. Feyer à direita, ao lado de Farael Cardoso e Leandra Leal

PALETA DE COR

Uma das coisas que mais impressionou Feyer ao se deparar com a construção da Beneficência Portuguesa foi o tom do prédio, que tinha a paleta de cores que ele pretendia para o filme. “Queria um filme azul, um filme frio, com uma paleta que vai do azul mais fechado para o preto, do verde para o preto, do marrom para o preto. Não tem nenhuma outra cor, vermelho é só o sangue e a luz da ambulância. Não tem laranja, rosa, amarelo”, explica. “Controlei muito as cores porque o cinema de gênero exige regras, até mesmo para serem quebradas, mas todos precisavam estar na mesma vibração, no mesmo tom, do elenco ao figurino.”

Sérgio Guizé e Rodrigo Santoro estavam na meta de Feyer para viver João. Ele admite ter considerado Rafael Cardoso jovem demais para o personagem. “Quando finalmente nos encontramos pessoalmente, ele se mostrou tão entregue e tão a fim de fazer que mudei de opinião. No futebol, a gente diz que quem pede a bola tem preferência, e foi assim com o Rafa.” O protagonista surge como um médico promissor, feliz no casamento e prestes a se tornar pai. Mas o enredo é cheio de curvas e camadas, e João passa da tranquilidade a total perda de controle. Para guiar o ator nessa travessia dramática, o cineasta criou uma marcação de cores para cada fase. “Chegava para o Rafa e dizia, agora você está verde, agora está de amarelo para vermelho, e aqui já está vermelho”, lembra. “Mudamos até a forma como ele caminha de acordo com as cores, para controlar sua intensidade.”

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