ENTREVISTAS ESTREIAS

“O sangue nas teclas é realidade”, diz João Carlos Martins sobre sua cinebiografia

Faz quase 15 anos que João Carlos Martins não toca mais piano. Não é verdade. O maestro teve de abandonar os teclados profissionalmente por inúmeros problemas na saúde de suas mãos. Durante a entrevista coletiva para a imprensa de João, O Maestro, contudo, seus dedos se movimentavam na mesa como se estivesse a tocar. Emocionante de ver. Necessidade básica. Vital. Ele próprio revela que passa de três a quatro horas por dia ao piano, mesmo ciente de que nunca mais vai tocar pra valer. Fora as sete horas de estudos diários para decorar as cerca de 5 mil páginas que tem de reger anualmente como o consagrado maestro que se tornou.

Mas foi como uma assumidade em Bach que Martins ganhou o mundo como pianista, e suas gravações das Bachianas formam a trilha de João, O Maestro, filme de Mauro Lima (Meu Nome Não é Johnny e Tim Maia) que estreia nos cinemas nesta quinta e amanhã, dia 18, tem sua noite de tapete vermelho como a obra de abertura do 45º Festival de Gramado.

É uma história de obsessão e perseverança, que começa com João menino, na pele do incrível Davi Campolongo, que estudava música, mas aprendeu a tocar piano para o filme. “Oito meses depois, Davi está triturando o piano de tal forma que já se apresentou na Sala São Paulo e no Teatro Municipal”, conta o maestro. “Ele tem duas opções na vida, ser ator ou pianista, e o vejo como meu herdeiro, de Arthur Moreira Lima e de Nelson Freire.”

Rodrigo Pandolfo (um show em cena) assume o personagem na juventude. Em 1965, aos 25 anos, Martins tomou um tombo ao participar de farra de um treino de futebol com a equipe da Portuguesa em pleno Central Park, em Nova York. Quebrou o braço na altura do cotovelo e teve como sequela a atrofia de três dedos. O acidente é uma das inúmeras provações retratadas fielmente por Mauro Lima. “O Rodrigo interpreta uma fase muito complicada, de depressão”, diz. “Na minha vida, já realizei 23 operações para manter meus sonhos.”

Alexandre Nero interpreta o protagonista na maturidade. Está ótimo também, em uma atuação vigorosa. O ator é músico, mas não deu uma de Ryan Gosling em La La Land e aprendeu a tocar piano para o filme. Diz que faz um balé com as mãos, uma coreografia. Tudo acompanhado de perto pelo maestro, que estava nas filmagens para garantir o sincronismo entre suas versões na tela e a música original. “Mauro retrata minha vida profissional com fidelidade, o sangue nas teclas é realidade”, afirma.

O maestro e Alexandre Nero

A dramaturgia pediu licenças poéticas quanto à vida pessoal, conduzida por uma pulsante tensão sexual do protagonista, que, aos 77 anos, continua com jeito de conquistador. E pensar que era um menino esquisito na infância. Até bullying sofreu. “A cena da minha primeira relação sexual não foi inventada”, revela bem-humorado. Alinne Moraes e Fernanda Nobre são junções de várias mulheres da vida do maestro, e Caco Ciocler faz o professor de piano, um personagem que o ator descreve como uma espécie de Senhor Miyagi, o mestre de caratê do clássico Karatê Kid.

O que teria acontecido se Clint Eastwood tivesse assumido o projeto? Sim, o consagrado diretor chegou a pensar na ideia. “Em 2009, ao fim de um concerto no Lincoln Center, o jazzista Dave Brubeck mandou uma carta para Clint Eastwood e disse que ele tinha de filmar minha vida”, explica Martins. “Clint respondeu que ia fazer o do Mandela (Invictus) e tinha outros dois engatilhados, mas que havia gostado muito da história. Quando contei para o cineasta Bruno Barreto, porém, ele disse para eu avisar ao Brubeck que o filme sobre minha vida tinha de ser feito no Brasil, por um diretor brasileiro.” E assim foi. “Eu estava com quase 70 anos e não quis arriscar a morrer antes de o filme ficar pronto”, brinca.

 

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