ENTREVISTAS ESTREIAS

O Segredo de Davi: Anjo Mau

Davi é um tímido estudante de cinema que mora sozinho em um apartamento no centro de São Paulo. Ele não desgruda da câmera e está sempre filmando coisas e pessoas. O olhar doce, emoldurado por traços finos e cabelo loiro lhe dão aparência angelical. Ledo engano. Porque surge algo bem diabólico na face do rapaz quando ele ataca sua vizinha, Maria (Neusa Maria Faro), e traz à tona um instinto que estava adormecido.

Pois na manhã seguinte Maria reaparece e passa a influenciar Davi em uma jornada de crimes. Nicolas Prattes interpreta o serial killer de O Segredo de Davi, primeiro longa do cineasta Diego Freitas.

Freitas vem se juntar à dupla Marco Dutra e Juliana Rojas (As Boas Maneiras e Trabalhar Cansa), Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial) e Rodrigo Aragão (As Fábulas Negras) no rol das novas vozes do terror nacional. O Segredo de Davi é um legítimo filme de gênero. Tem personalidade, roteiro enigmático, meticulosas fotografia e direção de arte, além de uma montagem em forma de quebra-cabeça que convida o espectador a assistir mais de uma vez para poder montá-lo.

A história estava na cabeça do cineasta desde sempre. Sua gênese, na verdade, está na própria biografia de Freitas. “A diferença é que eu foquei minhas dores na criatividade e não me tornei assassino”, brinca. Nesse descontraído papo com PREVIEW, ele conta como sua epopeia pessoal deu origem a esse suspense tão intrigante quanto humano.

Diego, conta um pouquinho de você para o leitor entender de onde vem o Davi.

DIEGO FREITAS – Sou de Mairiporã, no interior de São Paulo, e cresci em um sítio. Minha família é muito simples. Meu pai era pau de arara no Nordeste e tinha 70 anos quando nasci. Minha mãe emigrou de Minas Gerais e trabalhou de empregada doméstica. Sou o caçula de nove irmãos bem mais velhos e ninguém era relacionado às artes.

Como o cinema entrou na sua vida?

Estudei em escola pública minha vida toda e desde uns 12 anos comecei a ter uma coisa pela câmera. Ia a Lan houses ão comecei a estudar por conta própria. Frequentava Lan Houses e estudava filmagem e edição por conta própria. Trabalhei como garoto do xerox em uma escola que me emprestava uma câmera, então aos 14 fazia uns curtinhas bem ruins (risos). Comecei a trabalhar filmando casamentos, aniversários, batizados… Então sempre filmei e editei tudo o que fiz.

E quando veio para São Paulo?

Aos 18 anos prestei o Enem e ganhei bolsa do ProUni. Vim com a cara e a coragem para São Paulo faculdade de Cinema e TV. Foi muito duro. Morei em 14 lugares diferentes e penava para me sustentar. Morei no centro, com garoto de programa, em uma república com mais de dez pessoas, dormindo num canto… Nessa época já fazia freelas para produtoras. Também participei de um concurso que o site Omelete e a Petrobras promoveram, ganhei e o prêmio foi uma câmera Full HD, que era o máximo. Aos 21 anos abri uma produtora com um sócio e desde lá sabia que O Segredo de Davi seria meu primeiro longa.

Nos sets: Nicolas Prattes e Diego Freitas

Por quê?

Queria contar essa história porque tem muito de mim. Apesar de eu não ser um assassino (risos), o filme é uma metáfora de várias coisas que aconteceram comigo, e suspense sempre foi meu gênero favorito. O Segredo de Davi é sobre família. Quando saí de casa, passava por um problema familiar muito grande. Meu pai era muito conservador, nasceu em outra época e a carga religiosa sempre foi muito grande, eu não conseguia ser eu mesmo, isso me sufocava. A minha família é evangélica, então imagina…. Mas eu sempre tive cabeça boa e colocava essas energias em algo produtivo e criativo, mas me veio na cabeça o que aconteceria se esse menino fosse por outro caminho? Onde nasce o monstro? Pensei que esse monstro poderia surgir do desejo de ser amado de novo pela família. Davi busca uma coisa que fez falta pra ele a vida inteira, o afeto familiar. E o faz através de um instinto que vem de dentro. Quando mata a Maria, ela volta idealizada como a avó ideal. A vida dele antes das mortes seria uma cópia mal feita e ele quer erguer a família perfeita.

Como alavancou o projeto?

Antes do longa fiz alguns curtas e com o Sal rodamos vários festivais. Por um programa do Sebrae, fui para Los Angeles e ali entrei em contato com produtoras e distribuidoras brasileiras e resolvi falar do projeto. O Márcio Yatsuda, da produtora Movioca, disse que queria ver o argumento, só que eu nunca tinha escrito nada na vida. Sempre fui só de filmar e editar. Escrevi em três dias! Mas tudo estava havia anos na minha cabeça. O texto foi apresentado para a Elo Company, que também estava em LA. O bicho pegou quando eles me pediram o roteiro para dali a uma semana. Sentei com uma garrafa de café e passei madrugadas escrevendo. Meus medos, dores, traumas, coloquei tudo no papel e assim fechamos o contrato com a Elo. Foi com o primeiro tratamento do roteiro que ganhamos o edital do Fundo Setorial.

Foi difícil conseguir Nicolas Prattes para protagonista?

Foi uma odisseia. Durante os dois anos que levei para captar os recursos do filme, fiquei procurando o ator para fazer o Davi. Precisava de alguém que tivesse cara de anjo e diabo, e achava sempre um bonzinho e carismático que ficava risível na hora de matar, ou que tinha cara de louco e insuportável o tempo inteiro (risos). O Davi tinha de provocar empatia, apesar de fazer coisas horrorosas. O público precisa ser capaz de se colocar no lugar dele. Faltava três meses para filmar e ainda não tinha o Davi. Um dia liguei a TV e vi o Nicolas Prattes na novela Rock Story. Não o conhecia, mas ele tinha um olhar absurdo, de abandonado, e fiquei enlouquecido. Pesquisei e vi todas as cenas dele em Malhação. Falei com o empresário e fui esnobado, então fui atrás da mãe (risos). Mandei o roteiro e um teaser do filme. Ela gostou e mostrou para ele. Aí ele topou encontrar e fui embora para o Rio. Não fiz teste nenhum, almoçamos e senti aquela doçura e ao mesmo tempo algo sombrio. Era o Davi. Por um mês, ensaiamos oito horas por dia até as filmagens. Ele é muito dedicado, não errava uma fala. Ficamos hipnotizados.

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