ENTREVISTAS ESTREIAS

Produtor e diretor falam sobre Me Chame Pelo Seu Nome

Bem-recebido nos festivais por onde circulou, como Berlim, Toronto e Sundance, Me Chame Pelo Seu Nome já tinha conquistado mais de 20 prêmios na época do fechamento desta edição. Boa parte foi concedida pela crítica internacional e existem também possibilidades em premiações de grande prestígio. Até a finalização deste texto, o título liderou as indicações no Independent Spirit Awards 2018, concorrendo em seis categorias neste que é considerado o “Oscar do cinema independente”.

Além disso, recebeu outras três para o Globo de Ouro 2018 nas categorias melhor drama, ator (Timothée Chalamet) e ator coadjuvante (Armie Hammer). Se elas podem ser consideradas uma resposta precoce ou não à especulação – também precoce – ocorrida sobre o filme, o fato é que o longa produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira (A Bruxa) e dirigido por Luca Guadagnino (Um Mergulho no Passado) vem mesmo sendo badalado como um forte candidato no Oscar 2018.

O longa estreia nos cinemas nacionais praticamente junto com o livro Call Me By Your Name, de André Anciman, que chega às livrarias brasileiras com mais de dez anos de atraso. Lançado em 2007 e com direitos de adaptação comprados naquela época, o romance passou por longo e árduo processo de adaptação para o cinema.

Em conversa com PREVIEW durante visita ao Brasil no Festival do Rio, em outubro, Guadagnino contou que ninguém queria investir na obra por causa do enredo. A solução foi reduzir as semanas de filmagens e o orçamento para US$ 3 milhões (um quarto do valor previsto). Com roteiro do premiado cineasta James Ivory (Vestígios do Dia), Me Chame Pelo Seu Nome poderia ser apenas mais um “conto de verão” não fossem os apaixonados do mesmo sexo, um deles menor de idade e a abordagem dessa paixão não misturasse com talento doses de sutileza e um erotismo desavergonhado.

Rodrigo Teixeira (de óculos) e Luca Guadagnino /Foto de Ruano Carneiro

Na trama, o jovem estudante Elio (Chalamet) se encanta com o acadêmico Oliver (Hammer), que veio ser orientado pelos pais dele durante a quente estação de 1983, na Itália. Além da bela locação e bonitas imagens, a trilha sonora conta com um clássico do Psychedelic Furs (“Love My Way”) e ainda canções originais compostas por Sufjan Stevens.

O diretor Luca Guadagnino não escondeu o cansaço durante o encontro com PREVIEW. Andava viajando o mundo com seu filme e o humor não estava dos melhores, mas o produtor Rodrigo Teixeira também estava lá e deu o devido equilíbrio a essa conversa. Falamos até desse hype, se incomodava, se gerava alguma preocupação, algum clima de “já ganhou”.

O livro foi lançado em 2007 e só agora sairá no Brasil. Você acha que as coisas mudaram nesses últimos dez anos?
LUCA GUADAGNINO – O tema do filme, para mim, significa a descoberta dos seus desejos e a transição do conhecimento entre gerações. Então eu não vejo o filme como sendo qualquer outra coisa além disso.

Perguntei isso porque algumas pessoas que leram comentaram que ele ajudou, entre outras coisas, a conversar sobre o tema dentro de suas casas.
Eu acho que estes tópicos são provavelmente válidos em 2007, hoje ou amanhã.

Então seu filme pode ajudar famílias e pessoas a tratarem desse tema delicado e ainda objeto de polêmicas?
Dizer que um filme ou livro é honesto, significa que ele fala sob um ponto de vista muito orgânico. Acho que a interpretação foi muito honesta na maneira de abordar o livro. Pode ser essa a razão das pessoas sentirem que o livro as ajudou.

Embora já tenha trabalhado com roteiros originais, seus dois últimos projetos foram adaptações. Existe alguma preferência, foi apenas uma coincidência?
Eu gosto de livros, de romances. É a minha segunda adaptação (a primeira foi Um Mergulho no Passado, do romance de Alain Page). Eu gosto de adaptar, é uma coisa boa.

E qual seria a principal diferença?

Ah! As adaptações me dão mais controle. Você pode dar forma às coisas, do jeito que você quer. Não existe uma página em branco, que precisa ser preenchida. Você tem um material e pode formatá-lo, mudar sua forma. É por isso que eu gosto.

Boa parte do trabalho do ator Armie Hammer explora o estereótipo do galã bonitão, que encanta as mulheres. Em seu filme, ele continua bonito, claro, mas o tema ajuda a mudar o foco do encantamento. Como ele veio parar nesee projeto?

Eu queria trabalhar com ele. Desde que o vi, sempre achei ele tão forte, tão bom e tão preciso… Então eu ofereci o roteiro com a adaptação do livro e e ele disse “sim” de primeira.

Legal. E durante as filmagens surgiu algum problema, alguma cena que ele demonstrou mais dificuldade de fazer?

Nada, nenhum problema. Sempre divino, generoso, aberto… e muito comprometido com o trabalho.

Hammer chegou a dar algum tipo de opinião, ideia…?
Sim. Todo filme é uma conversa, uma troca de ideias. Um trabalho de equipe.

Você já conhecia o Rodrigo?

Eu já o conheço há muito tempo. Nós já tínhamos tentado trabalhar juntos. Ele é uma das pessoas mais ativas e excitante que conheço no mercado do cinema.

Muito bom. E o Oscar 2018? Os comentários sobre uma possível indicação não param. Isso incomoda vocês, como está a cabeça?

GUADAGNINO – Ainda restam quatro meses para a indicação (entrevista foi feita em outubro, durante o Festival do Rio). É muito bonito que as pessoas pensem sobre o nosso filme, me faz feliz, mas me mantenho humilde. Tem muito estresse, estou muito cansado, mas o trabalho é bonito e excitante.

RODRIGO TEIXEIRA – Eu acho que o Luca está certo em se proteger. O filme está sim cotado e pode vir como forte candidato. O trabalho foi bem feito não só pelos realizadores, mas também pela Sony Classics. Michael Barker e Tom Bernard são especialistas nesse tipo de projeto, dois gênios de mercado com quase 40 anos de experiência. Acho que foi a melhor casa que esse filme podia ter encontrado. E não é propaganda não, sabe?

Rodrigo, você fecha 2017 com vários filmes, cinco apenas no Festival do Rio. Virou uma verdadeira máquina de produzir…

Na verdade, estou terminando mais dois para estrear no ano que vem e esses cinco de agora eu havia filmado em 2016.

Existe algum segredo?
Eu não tenho um método exatamente, mas estou fazendo do meu jeito. Existe o momento em que você tem uma capacidade financeira maior que te permite produzir os filmes e em outros não.

Tem a ver com aquele método que você comentou comigo há uns cinco anos durante um almoço entre executivos do mercado?
Acho que o processo em si amadureceu. Me vejo virando uma página da minha carreira. Me Chame Pelo Seu Nome está me levando para um lugar onde quase alcancei com outros filmes. Acho importante estar acontecendo agora quando estou filmando outro projeto maior, que é uma ficção científica. Ele chega para consolidar o que eu vinha fazendo com a equipe. Na minha produtora (RT Features) eu vejo três filmes marcantes: Frances Ha, A Bruxa e Me Chame Pelo Seu Nome. É um prazer enorme.

E tem, praticamente, um intervalo de três anos nos respectivos lançamentos…
São três gêneros diferentes, não conversam entre si, o que valoriza o meu trabalho como produtor. E são títulos que ficam, as pessoas vão falar pelo resto da vida. Ter meu nome associado a eles é muito forte.

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