ENTREVISTAS ESTREIAS

Rosemberg Cariry resgata o circo e a literatura de cordel em Os Pobres Diabos

Muito antes de Karim Aïnouz e Halder Gomes surgirem na cinematografia brasileira, Rosemberg Cariry já fazia seu cinema acontecer no Ceará. E ele foi além, circulando em outras áreas como escritor, poeta e pesquisador das culturas populares, sempre presentes em seus filmes. O maior deles é o premiado Corisco e Dadá (1996) e lá se vão mais de 20 anos. Seu último longa de ficção foi Siri-Ará, de 2008, mais eis que Cariry finalmente lança Os Pobres Diabos, depois de um período dedicado ao documentário.

Além de dirigir, ele assina o roteiro, sobre um grupo de artistas mambembes que viaja pelo sertão nordestino e vai parar no município litorâneo cearense de Aracati. A trupe monta um espetáculo caprichado, mas a acolhida não rende o esperado. O elenco reúne nomes como Chico Diaz, Silvia Buarque, Gero Camilo e talentos da dramaturgia nordestina. A bela fotografia é assinada por Petrus Cariry, filho do diretor. Em conversa com PREVIEW, o cineasta conta que o filme nasce de duas vertentes importantes da cultura popular nordestina: o circo e a literatura de cordel.

Depois de seus últimos filmes terem sido documentários, você voltou para a ficção. Me conta um pouco sobre o processo do filme e o por que escolheu o tema do universo circense para Os Pobres Diabos? Essa arte esteve sempre presente em sua vida?

Eu gosto muito do documentário pelo insólito que a vida oferece, a partir de um recorte e de uma construção estética, próxima da realidade. A ficção me atrai pelo fabuloso que imita a vida e pelo documental que oferece, mesmo em suas vertentes mais fabulosas. As fronteiras entre os dois gêneros são tênues.

O filme nasce de duas vertentes importantes da cultura popular nordestina: o circo e a literatura de cordel. Os circos traziam coisas extraordinárias e magias que encantavam as populações das pequenas cidades. A literatura de cordel, vendida e propagada nas feiras, trazia as fantasias de outros mundos e a grandeza dos heróis e heroínas, que se movimentavam não apenas no sertão, mas em territórios imaginários de muitos países do mundo. No cotidiano do circo, acontecem aventuras, mas as dificuldades se acumulam. É a arte que se transforma em artimanha e ajuda a superar as desventuras do cotidiano.

Além do tema circense tão universal, você utiliza de vários elementos da cultura nordestina, principalmente a cearense em seus filmes, né?  E em Pobres Diabos não foi diferente? Sem contar o belo trabalho dos atores?     

O que é em geral entendido como cultura nordestina, por vezes me incomoda um pouco, sobretudo, quando resvala para estereótipos e clivagens muito próximas do preconceito. Para além disso, a discussão sobre o significado de cultura e especificidade cultural é outro desafio a enfrentar. A solução que encontrei neste filme, mas que já venho elaborando em trabalhos anteriores, para fugir desses dois perigos reducionistas, foi pensar o circo e grupo mambembe como originário de qualquer lugar do Brasil, ou pelo menos experimentado em tantos deslocamentos migratórios que a coisa da pertença territorial cede lugar a uma vivência de muitos lugares e códigos culturais.

Nesse sentido, os personagens têm em comum essa característica comum a viajantes e nômades: com o passar do tempo, eles vão adquirindo características de tantos lugares por onde passaram e/ou viveram, que já não é possível identificar de onde eles vieram, ou que lugar ou cultura representam. Esta decisão está refletida na escolha que fizemos dos atores e atrizes de Os Pobres Diabos.

Há sempre um momento decisivo do encontro dos personagens imaginados com aqueles que vão lhe dar corpo, alma e voz. Chico Diaz e Everaldo Pontes são dois atores que já trabalharam comigo em outros filmes. Além de atores talentosos, eles são amigos e parceiros, camaradas de jornadas. Convidei Silvia Buarque, pois eu gosto muito do tipo dela e do seu especial talento. Eu também acompanhava com especial interesse o belo trabalho de Gero Camilo no cinema e o convidei. Combinei a presença desses atores no filme com a Bárbara, que é a responsável pelo “cast” e foi quem convidou Zezita Matos, Georgina Castro, Sâmia Bittencourt, Nanego Lira e Reginaldo Ferro, além dos atores mirins, Letícia Sousa Perna e Sávio Ygor Ramos. Muitos artistas secundários foram contratados do Circo do Seu Motoca.

O filme resulta desse encontro entre atores profissionais do teatro e do cinema com os atores circenses, e de todos eles com a gente do povo. Isso nos levou a um clima constante de criação e de improviso. Realizamos um cinema que se coloca dentro da vida, um destino que se constrói junto ao acaso. No set, improvisamos muito e incorporamos cada dificuldade, cada chuva, cada dia de sol, cada talento ou idiossincrasia do ator. Tudo vira novos diálogos, novas ações, novas poesias. Para mim, o fato de “realizar” e o momento de “fazer” o filme são tão importantes quanto o resultado final, o filme pronto.

O filme aborda a vida desses artistas que lutam pela arte mesmo sabendo das dificuldades do dia a dia. E não importa se eles terão a comida garantida no dia seguinte. Você como cineasta que sempre trabalhou com a cultura, acredita que esse tipo de arte (como o circo, os artistas mambembes) ainda tem seu lugar ao sol?  

Nesse sentido, embora tenha toques de humor leve, o filme caminha para a tragicomédia, destacando dois aspectos. O primeiro é o cotidiano do circo. Embora tudo pareça realista e normal, no cotidiano do pobre circo, os artistas (estrelas tombadas como Lúcifer, nos céus do sertão) são uns “pobres diabos” em busca da sobrevivência e de algum reconhecimento do público, geralmente tão pobre e carente quanto os próprios artistas.

É uma história simples, mas que reflete sobre a arte e o artista, que persistem bravamente até hoje.  Embora eu tenha realizado uma aprofundada pesquisa, este filme é também parte de uma memória reinventada da infância nos sertões do Ceará. Lembro-me das atrações, do leão faminto que (conforme a lenda) alimentava-se de gatos; lembro-me também da cantora de rumba, do homem forte, do palhaço que cantava pelas ruas convidando para o espetáculo. As crianças que respondiam aos bordões, acompanhando os palhaços, recebiam um sinal da cruz, feito com cinzas, na testa, e podiam entrar no circo de graça.

Passávamos dias sem querer tomar banho, para não apagar aquele sinal na testa, nosso passaporte para tomar parte naquele sonho. Éramos, de certa maneira, transformados em atores coadjuvantes do grande espetáculo. Nesse sentido, o circo tinha uma função também iniciática. O sonho de todo menino do sertão era ser palhaço, mais do que trapezista ou domador de leão. Eu pretendi guardar no filme a singeleza desse sonho. O que mais me impressionava nesses circos mambembes era o contraste entre a pobreza, coberta com o luxo das lantejoulas e das cores de papel crepom e das chitas vistosas. Artistas que resistiam e se reinventavam, a cada dia, numa luta imensa para superação das dificuldades.

Em tempos de crises, essas artes populares dos circos mambembes, dos artistas de rua, dos poetas cordelistas e cantadores de feira, ressurgem com grande força. A arte tem, nesses momentos, um importante papel de coesão social, de busca identitária e de pertencimento a uma comunidade de destino.

Fale um pouco do trabalho de fotografia (que achei primoroso) ao lado de seu filho Petrus Cariry, que foi o responsável por complementar a trama.

Petrus Cariry, reconhecido diretor, é também um excelente fotógrafo, com vários prêmios pelas fotografias que realizou dos seus próprios filmes. Como ele tem sido um parceiro ao longo de todos esses anos, muitas vezes como montador, resolvi convidá-lo para fazer a fotografia do filme Os Pobres Diabos. Foi uma parceria muito legal, com muito diálogo e criatividade. Ele soube usar uma paleta de cores vivas de forma a acentuar o universo vibrante do circo e nas cenas mais dramáticas, imprimiu os contrastes de um barroco trágico.  Ele recebeu uma forte influência das artes plásticas e prima pelas composições e enquadramentos, elementos que sabe associar muito bem à uma visão bem contemporânea.

A locação do filme foi combinada com o Petrus. Optamos por um terreno descampado, nos arredores da cidade de Aracati, tendo como fundo as dunas e os cata-ventos eólicos. Contar com a natureza com a sua beleza litorânea e, ao mesmo tempo, exibir essa presença da tecnologia estrangeira que invade a paisagem.  O circo foi montado nesse cenário de grande luminosidade e transparência, tons mais etéreos de céu e terra, com suas lonas de cores fortes, criando um contraste interessante.

Sob o ponto de vista técnico, Petrus optou por fotografar com uma câmera Red One MX, com resolução 4K, com a janela em Scope 2.39, por ter menos teto e ser mais ampla, o que deu maior liberdade de movimentos nas laterais e mostrou melhor o terreno descampado, em que o circo foi montado. Tivemos uma paleta de cores muito rica, com a predominância do azul e do vermelho na arte do filme, o que ofereceu um contraponto bastante eficiente, já que tínhamos o universo multicolorido do circo contra a aridez do descampado.

As cenas noturnas internas e externas do circo e dentro dos trailers foram amplamente discutidas durante a pré-produção, já que teríamos que usar um parque de luz bastante reduzido por conta de questões orçamentárias e não teríamos tempo hábil para montar a luz, pelo fato de termos que cumprir um cronograma bastante apertado. Optamos, assim, por fazer uma luz minimalista para externas, basicamente usando luzes incandescentes caseiras e pequenos “fresneis” Arri de 300w e 650w. O resultado foi uma luz muito equilibrada e bonita, que dá ao filme o clima circense. Nos grandes planos noturnos, fizemos uso de HMI, com luzes mais potentes. A sequência do incêndio foi a mais difícil de realizar, com muito esforço de produção e cuidados técnicos, mas resultou bela e foi iluminada apenas com fogo nas lonas e alguns rebatedores. Tocamos fogo no circo, de verdade. O perigo foi a necessidade de nos aproximarmos bastante do fogo, com a câmera na mão, em algumas cenas, quando pedaços de lonas e mastros já começavam a ruir, mas tínhamos a assessoria do corpo de bombeiros, e tudo correu bem.

E qual é o próximo projeto no cinema?

Neste momento, estou mixando o longa-metragem “Folia de Reis”, que venho realizando há quatro anos, em meio a outros projetos, que por vezes me levaram a deixá-lo um pouco a minha espera. É um filme de baixo orçamento, produzido pela Bárbara Cariry e fotografado pelo Petrus. O filme conta a história de um velho ator, aposentado e fracassado, que trabalha com grupos sem-teto, na periferia de uma metrópole, onde monta um reisado de Congo. Um dia é convidado para apresentar-se com o seu grupo no Palácio do Governo e vê nisso uma grande oportunidade para realizar um happening de grande repercussão – o último grande ato teatral da sua vida. Durante a apresentação no palácio, com seus guerreiros dançarinos, ele sequestra o embaixador de um rico país que estava em missão militar em algum lugar do chamado Terceiro mundo. Esse ato termina trazendo a atenção da grande mídia e, junto, os horrores das violências e guerras contemporâneas, com suas tentativas de construir justificativas absurdas. O velho e desconhecido ator é acusado de terrorismo internacional, o que determina e justifica a invasão do território empobrecido pelos países ricos. A partir daí as coisas se precipitam numa sucessão de acontecimentos dramáticos e mesmo trágicos.

Nesse filme, eu faço uso de imagens ficcionais e de arquivos de noticiários de TV, compondo uma espécie de caleidoscópio delirante e onírico do mundo informacional contemporâneo. Misturando aspectos do real e da fantasia, o filme é uma espécie de “falso documentário”, que reelabora uma estética que mistura o verdadeiro e o virtual (o real manipulado), a farsa e a tragédia. Afinal, a indústria de entretenimento e comunicação decreta a morte do real, espetaculariza a vida e faz do simulacro, quantas vezes, a verdade estabelecida. Trabalho com atores profissionais e com amadores, tirados de meios populares. Tem sido um trabalho ao qual me dedico de forma apaixonada. A fotografia também é de Petrus Cariry.  Uma fotografia com uma pegada mais inquieta e vibrante.

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