ENTREVISTAS ESTREIAS

Ruy Guerra está de volta com Quase Memória

Aos 86 anos, Ruy Guerra (na foto com Tony Ramos) não economiza palavras para defender o cinema nacional. Nascido em Moçambique, o cineasta e um dos expoentes do Cinema Novo escolheu o Brasil (desde o final da década de 50) para viver e fazer sua arte. São 14 longas, entre eles Os Fuzis, A Queda (ganhadores do Urso de Prata em Berlim), Os CafajestesÓpera do Malandro (adaptação da peça de Chico Buarque), Kuarup (outra adaptação, da obra de Antônio Callado), O Veneno da Madrugada e Estorvo (também de Chico Buarque). Sem contar sua participação como ator, com destaque para Aguirre, a Cólera dos Deuses, do grande amigo Werner Herzog.

Ano passado, Guerra foi homenageado duplamente. Primeiro, com a biografia Ruy Guerra – Paixão Escancarada, da historiadora e professora da Unicamp Vavy Pacheco. Em seguida, com o documentário O Homem Que Matou John Wayne, dos diretores Diogo Oliveira e Bruno Laet.

Tony Ramos e Charles Fricks

Depois de 12 anos sem filmar, Ruy Guerra retorna com Quase Memória, mais uma adaptação, desta vez do best-seller homônimo do  jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (1926-2018). Lançado em 1995, Quase Memória recebeu dois prêmios Jabutis  e vendeu mais de 400 mil exemplares. Com bela produção da filha Janaina Diniz Guerra (fruto de seu relacionamento com Leila Diniz) e estética teatral, Quase Memória retrata a vida do pai de Cony, Ernesto, pelo olhar do filho na vida adulta e na terceira idade. O Carlos mais velho se depara com seu eu mais novo.  Ruy Guerra reúne Tony Ramos e Charles Fricks, além de João Miguel como  Ernesto e Mariana Ximenes como a esposa dele, Julieta.

Com muitos projetos pela frente e dono de uma energia de fazer inveja a qualquer jovem, Ruy Guerra falou com exclusividade para a PREVIEW.

Depois de alguns anos sem filmar, como surgiu a ideia de adaptar Quase Memória?

RUY GUERRA – Há 23 anos, meu amigo e produtor mexicano Alfonso Arau ia produzir o primeiro filme dele nos Estados Unidos e me pediu uma história com certas características. Tinha acabado de sair o livro do Cony e eu achei que preenchia os requisitos que ele tinha pedido. Só que o projeto falhou, e eu fiquei com a história na mão. Então, foram 23 anos para conseguir.

Como foi o processo de adaptação? 

O processo de adaptação de um romance para um filme é um salto de linguagem muito grande, obedece uma série de requisitos de ordem técnica e dramática que te obrigam a transformar a história. É inviável ser absolutamente fiel ao original porque a transposição determina certos níveis de dramaturgia que são aqueles praticados no cinema. Quanto ao elenco, seguimos certas características físicas dos personagens, mas meu critério básico é que sejam bons e excelentes atores. Foi o caso nesse filme. E tive um elenco com o qual fiquei inteiramente satisfeito.

Ano passado você ganhou uma biografia e dela surgiu uma adaptação para o cinema, que foi O Homem Que Matou John Wayne. Como se sentiu sendo duplamente homenageado ?

Foi excepcional. Tanto a biografia quanto o filme são extremamente generosos e foram feitos com muito cuidado e muita informação. Se eu não ficar famoso dessa vez, não fico nunca mais…

O tempo é um tema central em Quase Memória, mas que permeia toda a sua obra. 

Todo cineasta tem obsessões e a minha é o tempo. A memória é profundamente ligada ao tempo. Einstein dizia que o tempo é uma ilusão…uma ilusão persistente, mas uma ilusão. Em Quase Memória o tempo é tratado como uma farsa e ao mesmo tempo como um um tema pseudofilosófico.

Como você vê a nova geração de cineastas e o atual cenário do cinema nacional?  Que mensagem pode deixar para quem está começando? 

Gabriel García Marquez dizia que o Brasil era o país do cinema. Achava de fato que o Brasil tinha uma força natural nessa área. Acho que nas últimas décadas, aos trancos e barrancos, começaram a aparecer mais filmes e mais gente jovem produzinho. Talvez a profecia do García Marquez seja vervadeira. Ao mesmo tempo, devido a uma certa liberdade criativa, fruto de uma relutância de obedecer regras e normas, haja filmes mais mal acabados ou aparentemente mais rudes e rústicos. Mas isso também faz parte da nossa realidade, por conta de orçamentos pequenos e da própria necessidade de escolher histórias que caibam nesse orçamento. Agora, se o cinema não for uma verdadeira paixão para o aspirante a cineasta, é melhor ele estudar para ser engenheiro.

Quais são os próximos projetos?

Eu tenho mais projetos do que tempo de vida para realizar. Se eu não conseguir financiamentos rápidos não vou ter tempo para concretizar. Esse longo tempo que esperei para fazer o Quase Memória permitiu que eu escrevesse vários roteiros originais. Um deles devo filmar em agosto. Tenho outro que é também de baixo orçamento, mas é o suficiente para fazer a história, que forma uma trilogia com Os Fuzis e A Queda. Chama-se Fúria e espero filmar o ano que vem. Tenho um outro projeto que também já está em captação e se passa no Nordeste, onde quero muito voltar a filmar. É Tempo à Faca, uma trama de vingança que talvez seja o meu projeto mais ambicioso. E tem também o Fingidor, um filme policial em que o personagem central é o Fernando Pessoa.

 

 

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