ENTREVISTAS ESTREIAS

Selton Mello fala sobre O Filme da Minha Vida, sua obra mais pessoal

Lançado em 2011, O Palhaço  foi uma raridade no cinema nacional. Escrito, dirigido e estrelado por Selton Mello, esse filme de autor teve mais de 1,5 milhão de espectadores e ainda tentou uma vaga para o Brasil no Oscar. Os fãs de O Palhaço também vão adorar O Filme da Minha Vida, o terceiro longa de Mello, que adaptou o romance Um Pai de Cinema a convite do próprio autor, o chileno Antonio Skármeta (O Carteiro e o Poeta).

O Filme da Minha Vida é seu primeiro trabalho de adaptação. “O Skármeta foi muito generoso, me deixou à vontade porque sabia que eu precisava ir além, que tinha de inventar mais coisas e situações para os personagens”, diz. Em nova colaboração com Marcelo Vindicatto, coautor de seus outros longas, ele transportou a história original do Chile dos anos 50 para a Serra Gaúcha dos anos 60, porque a transição do rádio para a TV no Brasil foi dez anos depois do Chile.

A trama se passa em uma vila rural gaúcha em 1963. O jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) precisa lidar com a ausência do pai, Nicolas (Vincent Cassel), que foi embora sem aviso a não deu mais notícias. Seu vínculo paternal passa a ser com Paco (papel do diretor), o melhor amigo de Nicolas. Professor de francês, Tony convive com os conflitos dos alunos no desabrochar da adolescência enquanto experimenta ele próprio o primeiro amor. Apaixonado por livros e pelos filmes que vê no cinema de uma cidade próxima, ele leva a vida em um certo compasso de espera, até que a verdade sobre o destino de seu pai começa a vir à tona.

“Dizem que um cineasta faz o mesmo filme a vida inteira e agora, com três longas, começo a enxergar um parentesco, porque protagonistas se sentem um peixe fora d’água. Eles se deslocam, saem do seu lugar e vão para outro, se transformam e voltam amadurecidos. Acho bonito esse movimento.” Para o diretor, o rito de passagem é um tema caro a todos nós. “Todo mundo se identifica com o primeiro amor, com os primeiros medos, com o crescer.” A questão familiar também o tocou especialmente. “Cresci em uma família muito afetuosa, essa é a minha base, mas a do filme se rompe e o grande feito do Tony é querer juntar esses laços de novo.”

A produção é ambiciosa, com carros de época, além de figurinos, cenários e mais de 500 figurantes. Os dois filmes anteriores deram bagagem a Mello para o desafio, mas ele ressalta que a experiência de dirigir as três temporadas da série Sessão de Terapia para a HBO foi fundamental. “Fiz sozinho, foram 115 episódios e dentro de uma sala. No futebol há um treino famoso chamado treino de dois toques, em que você só pode ficar em meio campo e precisa dar rápido os dois toques. A sensação de Sessão de Terapia foi essa, como treinar dentro de uma sala”, explica. “Tinha de descobrir como prender a atenção do público durante meia hora, com duas pessoas sentadas na frente uma da outra, então quando fui fazer O Filme da Minha Vida tive uma sensação de respiro, de poder abrir a lente.”

Walter Carvalho assina a fotografia, e Mello só tem elogios. “A história é contada de uma forma grandiosa, clássica, como em Rio Vermelho (1948), do Howard Hawks, que é citado no filme”, diz. “A ideia era fazer um filme como antigamente e o Waltinho é o nosso mestre, um pintor da imagem.” Cineasta minucioso, Mello se diz um esteta. A trilha sonora nostálgica é repleta de clássicos franceses e americanos. “Pesquisamos muita música dos anos 40 e 50, porque nos anos 60 as rádios ainda tocavam sucessos das décadas passadas. O Plínio Profeta pôde se dedicar à trilha original enquanto a gente o abastecia com um monte de coisa”, afirma. “A música do Charles Aznavour, ‘Hier Encore’, eu descobri caçando no YouTube e me encantei porque falava sobre os 20 anos. ‘I Put a Spell on You’, da Nina Simone, eu amava desde sempre, era ótima para representar o Tony adulto.” Entre as nacionais, destaque para Sérgio Reis com “Coração de Papel”.

Em Feliz Natal, o cineasta resgatou a veterana Darlene Gloria do ostracismo e em O Palhaço, Moacir Franco e Ferrugem fazem participações especiais. O Filme da Minha Vida homenageia Rolando Boldrin, que havia mais de 20 anos não aparecia na telona. O diretor escreveu o personagem Giuseppe, o maquinista do trem, exclusivamente para ele. “O personagem é como um velho caubói. Achei bonito ter no condutor do trem uma espécie de condutor do filme”, explica. “É o homem que tudo sabe, que tudo viu. Não podemos dar spoiler, mas Giuseppe fez o transporte de todos, sabe o que aconteceu e que cada coisa tem seu tempo.”

Além da mudança do título do livro, Meu Pai de Cinema, para O Filme da Minha Vida, o cineasta revela que trocou todos os nomes dos personagens. “Eu piro em nome, acho uma coisa muito importante. Tony Terranova, por exemplo, é um nome de protagonista. Luna, Paco, Petra também são nomes marcantes”, diz. Além de Skármeta ter lhe dado liberdade total para criar, foi do autor do livro que ouviu algo inesquecível sobre Tony. “Ele disse que esse protagonista não se sente protagonista, ele se sente coadjuvante, e isso simplesmente foi o máximo e me deu a pista para fazer esse filme.”

Mello descreve O Palhaço como uma homenagem à sua profissão primeira, que é ser ator. “Na pele de um palhaço, que é o ator mais arcaico e primitivo, fiz uma homenagem ao meu ofício. Agora faço uma homenagem ao cinema, com um filme dentro do filme.” Há ecos de Cinema Paradiso, principalmente na emoção. “Quero que o público se sinta bem na saída do cinema. É tão duro aqui fora… Que o cinema seja o espaço de sonhar, de esquecer um pouco os problemas e ver uma história bonita que mexe com os sentimentos. Quero espalhar um pouco de ternura.”

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