ENTREVISTAS ESTREIAS

Stepan Nercessian fala sobre viver Chacrinha pela terceira vez, agora na telona

Em 2014, a vida de um dos maiores comunicadores do rádio e da televisão brasileira virou espetáculo teatral em Chacrinha, o musical, escrito por Pedro Bial e Rodrigo Nogueira, com direção de Andrucha Waddington, conhecido por filmes como Os Penetras e Eu Tu Eles. Foi um estrondoso sucesso.

Ano passado, para celebrar o centenário de seu nascimento – 30 de setembro de 1917 – a Globo chamou Waddington para comandar o especial Chacrinha, o Eterno Guerreiro, que surpreendeu na audiência.

E agora, no ano em que se completam três décadas de sua morte – 30 de junho de 1988 -, o diretor lança nos cinemas Chacrinha: O Velho Guerreiro. No palco, na telinha e na telona, Abelardo Barbosa tem o mesmo intérprete na fase adulta: Stepan Nercessian.

Preview conversou com o ator, que dá mais um show como o Velho Guerreiro.

Sabia que quando damos um “google” em Chacrinha, entre as imagens dele aparece uma sua caracterizado?

STEPAN NERCESSIAN – Sério? Que ótimo. Mas, na verdade, quando o Andrucha me chamou para fazer o musical, eu relutei bastante. Não me via como ele nem para imitar, imagina cantar. Mas encarei como um desafio e fui trabalhando no sentido de entender o Chacrinha como ser humano, precisavam encontrar o homem Abelardo Barbosa, pois do personagem eu já era fã. O mergulho me deu essa dimensão e foi ficando tudo verdadeiro, até o momento em que vieram os elementos de caracterização, com a peruca, o óculos … e foi uma surpresa para todo mundo e para mim. Achei que estava muito mais parecido do que imaginava. Só que também aparecia em casa, sem camisa e de cueca, então o público precisava acreditar que eu era ele sem a fantasia também.

São registros diferentes o Chacrinha que criou para o musical, para a TV e agora para o cinema?

Cada meio tem sua magia. No palco, é como atuar para uma câmera só, um grande plano sequência. O teatro, pela distância, te permite uma caracterização mais rebuscada, com um estilo mais teatralizado mesmo. E ali eu ficava 90 minutos como Chacrinha e acabou. Quando fui fazer o especial para a televisão, me chamou a atenção o fato de estar no habitat do Chacrinha e minha admiração aumentou ainda mais, pois percebi o quanto ele dominava o palco da TV, como era craque ao lidar com câmeras e plateia ao mesmo tempo e como era difícil fazer isso. E o cinema é o mundo do detalhe, tudo precisa convencer sem parecer teatral. O olhar ganha importância, tem de vir mais da alma do que do gesto. Eram 12 horas como Chacrinha e tinha de ficar no personagem, pois a qualquer momento podia ser chamado para filmar. A concentração era muito maior. Nossa relação ficou mais íntima.

Waddington e Nercessian/Foto credito Suzanna Tierrie

O quanto Chacrinha foi marcante na sua formação como ator?

Eu era muito fã, assistia ao programa porque transmitia alegria, era um ponto de luz na programação. A gente queria saber qual seria a fantasia naquele dia, era sempre uma surpresa. E a sensação era de que nada era programado, de que podia acontecer alguma coisa inusitada o tempo todo. O resultado do trabalho era lúdico, mas as pessoas não imaginam como ele lutou bravamente contra tudo o que se opunha à sua liberdade de expressão.

O filme mostra que trouxe para o palco seus próprios demônios também.

Exatamente. Sabe aquela música (“Épico”) do Caetano (Veloso) que diz “botei todos os meus fracassos na parada de sucesso”? Tudo o que era adversidade ele incorporou e transformou em sucesso.

Com muito trabalho, pois fica claro que era um workaholic.

Uma característica daquela geração de artistas da TV da época, com a qual me identifiquei e explorei na construção do personagem, é o que eu chamo de fantasias de pé no chão. Por trás do sonho e do glamour havia pais de família atrás de sustento. O sucesso, se vinha ou não, era consequência, porque o gás que os impulsionava era levar comida pra casa. Chacrinha era um imigrante do nordeste que fez rádio e televisão, mas podia ter virado peão de obra.

Crédito Foto Suzanna Tierrie

Eduardo Sterblitch o interpreta na juventude. O quanto vocês trabalharam juntos para tornar a passagem para a vida adulta tão encaixada?

Houve uma troca muito intensa, além do fato de sermos amigos e nos darmos muito bem. Edu  não escondeu a pressão por fazer um personagem com alguém que já o interpreta há quatro anos. Ensaiamos juntos. Li cena por cena com ele, fizemos um estudo profundo do roteiro e cheguei até a fazer cenas que eram dele, que ele gravava para depois estudar.

Como alguém tão politicamente incorreto quanto o Chacrinha lidaria com as redes sociais?

Minha impressão é que, se hoje tem rede social, naquela época também existia uma rede de intrigas tão preconceituosa quanto. Lá atrás, muitas pessoas eram criticadas, baixavam a cabeça e aceitavam, mas o Chacrinha não, ele sempre resistiu e faria o mesmo hoje. E seria um enorme sucesso.

 

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