ENTREVISTAS ESTREIAS

Talvez Uma História de Amor por Mateus Solano e o diretor, Rodrigo Bernardo

Virgílio é o método em pessoa. Tem enorme prazer em acordar todo dia na mesma hora, comer a mesma coisa e dar o mesmo número de escovadas nos dentes. Esse sujeito idiossincrático é tão feliz em sua rotina previsível e controlada que chega ao ponto de recusar uma promoção na agência de publicidade em que trabalha porque “está bom desse jeito”. Virgílio é avesso à mudanças e a modernidade não tem espaço nesse arranjo.

Pois é na ultrapassada secretária eletrônica que ele ouve o recado de uma mulher: “Virgílio, é a Clara, desculpa estar deixando isso por mensagem, mas acho melhor a gente parar por aqui, adeus”. Como? Clara, que Clara? Sem ter ideia de quem é a moça que acaba de lhe dar o fora, ele empreende uma cruzada pessoal para descobrir sua identidade. Os amigos comentam, os colegas de trabalho perguntam, todos de alguma forma sabem da relação dos dois, menos ele. Essa busca é o mote de Talvez Uma História de Amor, uma rara comédia romântica nacional.

Mateus Solano dá vida a esse anti-herói romântico nascido nas páginas do livro homônimo do francês Martin Page, por sua vez descoberto pelo diretor Rodrigo Bernardo na fase em que pesquisava material para outro projeto. “Fiquei encantado pela história logo nas primeiras 20 páginas e acabei conhecendo Martin”, revela em conversa com Preview. “Um dia estávamos de papo e ele me contou que talvez seu livro fosse adaptado para um curta, aí me exaltei e disse ‘curta não, deixa que eu faço o longa!’, e ele topou.”

Talvez Uma História de Amor é a estreia de Rodrigo Bernardo em longa-metragem. Seu  curta de 2009, Malu e Fred, e a série (Des) Encontros, exibida pelo Canal Sony em 2014, também são sobre a procura da alma gêmea. O seriado, inclusive, deve estrear a segunda temporada ainda neste semestre. “Não foi nada pensado, mas 99% do que fiz até hoje é sobre amor e relacionamento”, comenta. “A questão da memória seletiva gera uma curiosidade muito grande, mas por trás disso há a essência do filme, que é um sintoma atual: as pessoas têm medo de se relacionar, elas se protegem e hesitam em se apaixonar.”

Para o cineasta, a dificuldade da entrega sentimental fica ainda mais contundente em alguém como Virgílio. “Ele é regrado, tem a vidinha controlada, mas o amor é algo incontrolável e se as pessoas normais, sem tantas manias, já são receosas, imagina um cara como ele”, afirma. Não é à toa que o protagonista vai parar na psicóloga, a Dra. Márcia (Totia Meireles), que tenta ajudá-lo a recuperar a “fatia de pizza” chamada Clara, que apagou da memória.

Mateus Solano e o diretor Rodrigo Bernardo

Embora não conhecesse Mateus Solano pessoalmente, Bernardo escreveu o roteiro com o ator em mente. “Mateus tem um escopo muito grande e vai da comédia ao drama em um segundo, com aquele olharzinho que te faz chorar”, elogia. “Quando lhe apresentei o projeto, disse o seguinte ‘se não quiser fazer, não tem problema, vou deixar na gaveta até você mudar de ideia, sem pressão, fica tranquilo’.”

Mateus Solano conta à Preview que o encontro com o cineasta foi durante um almoço na Pérgula do Copacabana Palace, no Rio. “Achei no mínimo inusitada uma história de amor na qual só há uma pessoa procurando a outra, enquanto na fórmula da comédia romântica duas pessoas passam por várias coisas, conversam com seus amigos e no fim acabam se encontrando”, diz. “Aliás, é um gênero que a gente não vê no Brasil, porque aqui as produções são mais puxadas para a comédia do que para o romance. Isso me interessou e era um desafio ser o protagonista.”

Solano foi aconselhado a não ler o livro de Martin Page. “A questão da memória não era explicadinha no roteiro, era mais subjetiva”, afirma. “A memória lacunar do Virgílio faz todo sentido, porque ele é tão organizado que colocou na pasta do lixo aquilo que põe em xeque a sua estabilidade, que é o que ele mais preza: certeza, ângulos retos, tudo o que é certinho e compartimentado.”

Virgílio vive com um pé no passado e a direção de arte faz com que seu apartamento no centro de São Paulo pareça de outra época. O toque retrô está nos detalhes do cenário e também nos objetos pessoais. “Para Virgílio, não há razão para comprar um celular novo se o seu, daqueles que a gente puxa a antena, ainda está funcionando. Ele é assim com tudo e essa resistência absoluta ao novo é nociva para ele”, opina Solano.

Solano com Bianca Comparato

Em sua peregrinação atrás do paradeiro de Clara, Virgílio entra em contato com amigos e conhecidos, interpretados por nomes como Paulo Vilhena, Nathalia Dill, Juliana Didone, Marco Luque e Dani Calabresa. Nesse processo, ele também se aproxima da vizinha, Katy (Bianca Comparato), e o espectador se questiona se ela pode ser a tal Clara, ou se ele vai viver um novo amor.

O fato de Clara só se revelar na etapa final desafia o ator a convencer o público de que seu personagem era apaixonado pela mulher esquecida. “O amor está dentro da gente e quando ele abraça a secretária eletrônica e sai pela rua, o amor está ali”, explica Solano. “Ele é um cara amoroso, acontece que o amor puxa o tapete da nossa previsibilidade, e a resistência de Virgílio à mudanças o faz deletar Clara, mas essa conta não fecha e esse dividendo é cobrado durante o filme.”

Rodrigo Bernardo foi buscar inspiração em sua comédia romântica preferida: Sintonia de Amor, enorme sucesso dirigido por Norah Ephron em 1993, em que Meg Ryan é a repórter que se encanta pelo viúvo Tom Hanks ao ouvir sua voz em um programa de rádio – o filho dele quer lhe arranjar uma nova mulher. “É uma das melhores comédias românticas de todos os tempos e sou muito fã desse lance de ser enamorar de alguém que não se conhece.” As referências aparecem de diversas formas. A principal – que está no trailer – é o encontro no topo de um prédio em Nova York. Embora não seja no mesmo edifício de Sintonia de Amor, o Empire State Building, a cena foi rodada na Big Apple.

Cynthia Nixon

Além das locações em São Paulo, as filmagens em Nova York foram um desafio extra para Bernardo. “Já foi uma luta conseguir filmar no interior do Masp e deixamos o quadro do Van Gogh no fundo, mas nem acreditei quando tivemos permissão para fechar o Museu Guggenheim”, conta o diretor. Ele queria uma atriz nova-iorquina para a cena em que Virgílio fala com a recepcionista do museu.

“Não tínhamos verba para trazer alguém de Los Angeles e de repente surgiu a chance de Cynthia Nixon fazer a participação especial”, lembra. “Caramba, ela foi a Miranda de Sex and the City e fez Amadeus!” A princípio, porém, o agente da estrela implicou com o tamanho da cena, que tomava apenas uma página do roteiro. “Foi aí que escrevi uma cena de quatro páginas especialmente para ela.” O resultado é um dos melhores diálogos do filme, e definitivo para o destino de Virgílio.

“Cynthia arrebenta na cena”, elogia Mateus Solano. “Eu não assisti a Sex and the City, mas quando disse que a vi em Amadeus, ela contou que tinha 17 anos na época e falou dos bastidores na Tchecoslováquia comunista. Batemos muito papo sobre a profissão”, revela. Cynthia é militante pela diversidade e acaba de se lançar pré-candidata ao governo de Nova York. “Ela é admirável também como pessoa e só tenho motivos para me orgulhar dessa parceria”, completa Solano.

Curiosidade: Antes de cada cena, o diretor fazia diferentes dinâmicas de aquecimento com o elenco. “Ele colocou uma música dentro do Guggenheim e eu fiquei dançando com Cynthia ali no saguão, para aquecer antes de filmar. Foi um momento inesquecível”, lembra Solano.

 

 

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