ENTREVISTAS ESTREIAS

Tungstênio: Heitor Dhalia dirige a ótima versão dos quadrinhos

Na tabela periódica, o tungstênio é representado pelo W e ocupa o número 74. É um metal pesado e duro, mas fácil de romper quando está puro. O cineasta Heitor Dhalia ficou intrigado com o título dos quadrinhos de Marcello Quintanilha. Premiada como melhor história policial no aclamado festival francês de quadrinhos de Angoulême, em 2016, a HQ chega aos cinemas em nova colaboração de Dhalia com o roteirista Marçal Aquino, a dupla por trás de Nina e O Cheiro do Ralo. Tungstênio estreia na esteira de Motorrad, baseado na obra do quadrinista Danilo Beyruth, e em setembro tem mais com O Doutrinador, adaptação da HQ de Luciano Cunha.

Quintanilha e Dhalia, à direita

Nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, Quintanilha é radicado em Barcelona desde o inícios dos anos 2000, mas álbuns como Salvador, Sábado dos Meus Amores e Almas Públicas mostram o quanto permanece antenado na realidade brasileira. Em Tungstênio, é Milhem Cortaz quem narra os eventos que fazem colidir quatro personagens durante um ensolarado dia na capital baiana, Salvador: o ex-sargento do exército Seu Ney (José Dumont), o jovem traficante Cajú (Wesley Guimarães), o policial durão Richard (Fabrício Boliveira) e sua esposa, Keira (Samira Carvalho Bento). Tudo começa à sombra do Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, onde dois homens pescam com explosivos.

No prefácio dos quadrinhos, Quintanilha explica que o tungstênio é a matéria-prima do dia a dia de seus protagonistas, que vão botar à prova sua dureza. Quem leu vai se impressionar com a fidelidade da recriação quadro a quadro feita por Heitor Dhalia. O diretor falou com PREVIEW.

Como Tungstênio chegou até você?

HEITOR DHALIA – O quadrinho me foi indicado por um amigo e tive uma intuição boa por causa do nome, Tungstênio. Entrei em contato com o Marcello pelo Facebook e ele me retornou na hora, o que é raro. Ele se propôs a escrever a primeira versão do roteiro. Descobri por acaso, durante um jantar, que o Marçal Aquino, meu parceiro nos roteiros de Nina e O Cheiro do Ralo, também tinha lido e adorado o quadrinho. Decidimos adaptar, o (Fernando) Bonassi entrou como coautor e o Guel (Arraes) fechou como produtor associado. Foi tudo uma feliz coincidência, nada planejado.

Quintanilha mora há muito tempo em Barcelona, mas ambienta a história em Salvador. Chegaram a conversar sobre isso?

O Marcello estava a trabalho em Salvador e ouviu no rádio a notícia de dois caras presos por pescar com bomba, um crime ambiental bastante comum na Bahia. Eu mesmo vi pescarem assim enquanto estava filmando em locação. Ao dois estavam perto do Forte de Monte Serrat quando receberam voz de prisão. Marcello foi investigar, fotografou a região e quando voltou para Barcelona escreveu os quadrinhos. É incrível como, embora more fora há tempos, ele consegue traduzir a voz do Brasil periférico e suburbano como ninguém. Faz uma crônica da periferia brasileira de um jeito impressionante. Seus quadrinhos acessam um Brasil profundo.

Seu primeiro longa, Nina, é justamente sobre uma quadrinista e ali você já trabalha muito essa linguagem visual. É uma volta às origens?

O Cheiro do Ralo também adapta um romance de um autor de quadrinhos, o Lourenço Mutarelli, então, por coincidência, minhas três parcerias com o Marçal são nesse universo. Não tinha parado para pensar sobre isso. Quadrinho é uma linguagem contemporânea e muito ligada ao cinema, por contra de sua linguagem visual e estilo pop.

Em Tungstênio há tomadas e posições de câmera radicais. Foi uma preocupação ser o mais fiel possível?

Tentamos traduzir todos os quadros, das posições dos personagens aos enquadramentos. Filmamos tudo com lentes angulares e foi uma escolha de direção radical. O filme inteiro tem essa pegada e é raro ver esse visual no universo popular, como a favela de Salvador, a Cidade Baixa…

A trama tem quatro personagens bem definidos, que se cruzam com total fluidez.  

Sim, e a construção narrativa começa no próprio quadrinho, que é muito engenhoso. A ação é em tempo contínuo, quebrada por flashbacks e flashforwards. Você anda para frente e para trás sem nunca ter certeza em que tempo está. Até os flashbacks são quebrados no tempo, não estão em ordem cronológica. É bem complexo e os personagens se colidem e se conectam nessa narrativa. O elenco todo leu os quadrinhos, para então fazer um aprofundamento sobre os sentimentos de cada personagem. Quando filmamos, o enredo nem tinha essa atualidade toda, mas agora está muito contemporâneo. Há um ex-militar como candidado à presidência, a intervenção militar no Rio e um general dando declarações polêmicas. A sombra do passado está de volta e se traduz no Seu Ney. A solução pra ele é a volta do exército. Mas é um personagem cômico, irônico, com sonhos delirantes de autoridade. É como se o País fosse aquele menino, o Cajú, em quem ele quer dar um jeito na pancada.

Tungstênio mescla ação, humor, violência e sexo, mas tem um lirismo que surpreende na etapa final, com a relação entre mãe e filho.

É um universo muito sórdido e violento o dos excluídos, mas são todos seres humanos, com suas contradições e sentimentos. O amor do Cajú pela mãe é mostrado em poucos quadros, e isso o Marcello faz muito bem, com delicadeza e domínio da narrativa. Você não espera por aquilo né?

 

 

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