ENTREVISTAS ESTREIAS FESTIVAIS

Fellipe Barbosa fala de Gabriel e a Montanha

Único representante do Brasil no último Festival de Cannes, Gabriel e a Montanha foi laureado duplamente na prestigiada Semana da Crítica do evento. O diretor Fellipe Barbosa ganhou um prêmio de revelação e um de distribuição, que ajudou a alavancar a estreia do filme na França. Pois Fellipe acaba de ganhar o Prêmio da Crítica na 41a Mostra SP, anunciado nesta quarta – veja a lista completa. Barbosa viveu momentos de emoção na Riviera Francesa e na Mostra, pois havia gente da família de Gabriel Buchmann a seu lado na exibição do filme sobre o amigo que morreu em 2009, na etapa final da viagem de um ano pela África.

Em seu terceiro longa-metragem, depois do documentário Laura e do premiado Casa Grande, Barbosa refaz os últimos 70 dias da travessia de Gabriel, interpretado por João Pedro Zappa (Boa Sorte). Formado em Economia e prestes a começar um curso de políticas públicas na UCLA, em Los Angeles, o carioca de 28 anos passou por países como Quênia e Tanzânia, sempre preocupado em conhecer as particularidades das comunidades locais, como a tribo dos Massais. Também se aventurou na subida de montanhas difíceis, como o Kilimanjaro, ponto mais alto do continente africano, e morreu de hipotermia após decidir subir o Monte Mulanje, pico mais alto do Malawi com mais de 3 mil metros de altitude, sem a companhia de um guia. Seu corpo foi encontrado 19 dias depois. “Conheço o Gabriel desde os 7 anos de idade, estudamos juntos até os 18 anos no São Bento, onde se passa o Casa Grande, mas em seguida fui morar em Nova York para estudar cinema e perdemos contato”, conta o cineasta à PREVIEW. “Voltei ao Brasil definitivamente em 2008, nove anos depois, e quando cheguei o Gabriel havia acabado de partir para fazer essa viagem.”

Fellipe Barbosa

A ideia de realizar o filme surgiu na época em que Gabriel ainda estava desaparecido e Barbosa tinha esperança de ouvir do amigo detalhes de sua epopeia. O próprio diretor havia estado na África dois anos antes, quando foi à Uganda fazer um curso de montagem em um laboratório criado pela cineasta indiana Mira Nair. Durante o período das buscas, o diretor estava em contato constante com a família e leu muitos dos e-mails enviados por Gabriel – alguns deles estão reproduzidos no filme. “Naqueles textos reconheci o sentimento, a felicidade de ele estar ali, porque senti a mesma coisa, a ponto de remarcar minha passagem diferenças vezes e ficar lá três meses”, lembra. “A experiência do encontro com a África profunda é inesquecível e sei que o Gabriel sentiu a mesma coisa, só que ele foi mais longe e ficou para sempre…” Antes de a causa da morte ser anunciada, muitos amigos em comum temiam que Gabriel tivesse sido assassinado por locais. “Fiquei chocado, não entendia como as pessoas podiam chegar tão fácil a essa conclusão. Então através do Gabriel vi a chance não só de aproximar esses pontos geográficos tão distantes, mas ao mesmo tempo tão íntimos, como também desmistificar e fazer uma cartografia humana dessa parte do mundo.”

REENCONTRO

Em 2011 e 2015, Barbosa foi à África fazer um trabalho de detetive na fase de pré-produção do filme. “Além dos e-mails, minha base eram as fotos da câmera que foi encontrada com o corpo dele, pois havia muitos cartões de memória”, explica. A câmera fotográfica usada por João Pedro Zappa (Boa Sorte), intérprete de Gabriel, é a verdadeira, assim como várias roupas, inclusive a túnica massai. “Gabriel tinha um caderno de anotações e descrevia vivamente os encontros, o que dava uma boa noção de quem eram os personagens mais importantes com quem ele havia cruzado.” Ali estavam marcados números de telefones que foram fundamentais para que o diretor contatasse guias e amigos que Gabriel fez pelo caminho, e que contracenam com o protagonista. “Todos toparam fazer parte do filme, o único que mostrou um certo receio foi o último guia, porque sente culpa por ter deixado Gabriel ir sozinho.” Nesse capítulo final da viagem, Gabriel recebeu a visita da namorada, Cristina Reis (Caroline Abras), que também colaborou com informações valiosas.

O motivo de ele ter liberado o guia e continuado sozinho a subida do Monte Mulanje é um grande mistério. “Quando se está há muito tempo na estrada, a gente sente-se muito forte, invencível, e esse componente é muito importante, a confiança que ele sentia naquele momento”, comenta Barbosa. “Depois de ter enfrentado tantas montanhas, achava que podia fazer e tinha a vontade de ficar sozinho, era um desejo da alma, mas tem esse outro lado teimoso, de não ouvir o conselho dos locais.” Uma equipe de menos de 20 pessoas, entre técnicos e atores, percorreu quatro países africanos para retratar os 6 mil quilômetros de percurso dos últimos 70 dias de viagem de Gabriel. “Éramos a quantidade que cabia dentro de um caminhão”, revela o diretor. “Subimos o Kilimanjaro em 13, uma rota que tem 40% de sucesso e toda a equipe que começou a subir chegou no topo, foi miraculoso.”

Para Barbosa, realizar Gabriel e a Montanha foi um trabalho espiritual. “Ao refazer o caminho, tentamos iluminar os passos do Gabriel, no sentido de mostrar para o espírito dele o que aconteceu. A gente tinha um pouco de medo de que talvez ele não tivesse se dado conta da morte, porque ele foi dormir e morreu de hipotermia, achando que iria acordar no dia seguinte.” Durante as pesquisas, o diretor descobriu que Gabriel falava muito mais dele para amigos do que podia imaginar. “Ele admirava o fato de eu ter ido fazer cinema. O filme foi meu reencontro com o Gabriel, estava devendo isso para ele, talvez uma forma de pedir perdão pela minha ausência.” Estreia nesta quinta, 2 de novembro.

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