ESPECIAIS FESTIVAIS

Festival de Brasília 2017: Quero inteiro, e não pela metade

Todos concordam que a 50ª edição do Festival de Brasília foi histórica, em grande parte, por causa dos debates (in)tensos que acompanharam os filmes selecionados. A grosso modo, o que se pediu foi vozes às minorias, entre elas negros, mulheres e LGBTs. A diferença é que agora não bastam reconhecimentos, exige-se algo mais concreto.

Isso foi percebido no debate de Vazante, quando representantes do movimento negro questionaram como os escravos foram representados no longa. As acusações proferidas ali fizeram com que a diretora Daniela Thomas pedisse desculpas e expressasse seu arrependimento.

Cena do filme Vazante (2017)

Apesar disso, o ponto alto se deu quando o roteirista Beto Amaral disse que gostaria de fazer um filme com vozes negras mais autênticas. Diante disso, os espectadores propuseram que ele firmasse no ato um contrato de produção com atores, diretores e roteiristas negros presentes no recinto. Não há mais espaço apenas para desculpas. Vivemos um tempo de ações.

Outro momento dessa inquietação foi observado quando um representante do público alertou para a acessibilidade de aparências do Festival. As sessões têm todas as ferramentas para suprir espectadores com deficiências sensoriais e o cinema conta com espaços reservados para pessoas com problemas de mobilidade. No entanto, não há acessibilidade social. Os atrasos nas sessões são tratados com naturalidade extrema e muitas acabaram depois da meia-noite, sem qualquer preocupação com quem precisa fazer longos trajetos para voltar para casa. Isso porque falamos de Brasília, uma cidade reconhecidamente hostil para quem não possui carro.

Essas atitudes pontuais mostram um descontentamento agudo dos excluídos. Em tempos tenebrosos, esses gritos são necessários para que conceitos sejam repensados. Inclusive por nós, críticos de cinema. Em algumas interações com colegas de profissão, especialmente de gerações mais antigas, ficou claro que há um descompasso, muitas vezes expresso com piadas. Há quem não entenda a importância da presença de filmes realizados por negros e mulheres em competições nos festivais. Não é uma questão de cota protocolar, é o caso de reconhecer a limitação de compreensão de uma realidade e um discurso que não é branco, de classe média, cis, e tudo mais que acompanha.

Cena do filme Construindo Pontes (2017)

Se há muito a se comemorar do que foi visto em Brasília, também é preciso espaço para avaliar exageros. No período polarizado em que vivemos, há dois filmes que tentaram explorar essa cisão social. Construindo Pontes a retrata, mas não avança. Já Por Trás da Linha de Escudos propõe um diálogo, e foi recebido como afronta.

Cena do filme Por Trás da Linha de Escudos (2017)

O documentário pernambucano está longe de ser perfeito, mas não merecia tal calvário. Ele humaniza sim os agentes do Estado responsáveis por reprimir movimentos sociais, porém até onde me lembro são seres humanos que estão dentro das fardas. Se não conseguimos ver que existem outras pessoas do outro lado do muro, estamos tão errados quanto aqueles que combatemos.

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