ESPECIAIS PREMIAÇÕES

Globo de Ouro: Uma premiação que se esforça para perder credibilidade

“Esse prêmio não vale nada”, anunciou o apresentador Ricky Gervais no monólogo de abertura do 73º Globo de Ouro. “É um pretexto para jornalistas darem prêmios para celebridades e tirar selfies.” Ao ver os indicados e ganhadores, fica fácil acreditar no humorista. E o fato de 56% das categorias serem disputadas por atores favorece.

Há anos a categoria melhor filme de comédia ou musical tem sido totalmente deturpada. Hoje é uma “série B” de melhor filme. Títulos nada cômicos ou musicais entram na disputa: Alice no País das Maravilhas (2010), Sete Dias com Marylin (2011) e nesse ano Perdido em Marte (2015), que acabou sagrando-se vencedor.

Os votantes da premiação são correspondentes internacionais de imprensa que moram em Los Angeles. Se o leitor seguir alguns deles pelas redes sociais, vai ver os vultuosos brindes que recebem dos candidatos, verdadeiras cestas de mimos. Essa boa vontade interesseira da indústria faz sentido, mas a sedução que ela causa no votante é questionável. Corre pelo meio a piada de que o Globo de Ouro deveria ser rebatizado como “Jabá Awards”.

Ao receber a homenagem pelo conjunto da obra, Denzel Washington comentou o assunto. Falou de quando almoçou com representantes da HPFA (Hollywood Foreign Press Association) e foi instruído a sorrir e ser simpático. “Eu ganhei naquele ano”, disse, para o delírio da plateia de astros.

Essas mordomias se repetem em eventos internacionais de imprensa. Membros da HPFA têm transporte diferenciado e preferência na marcação de entrevistas. Alguns artistas só falam com associados. Assim, cria-se um ambiente de queridinhos da instituição, o que culmina com o desconforto de ver Jennifer Lawrence levar o prêmio pela terceira vez, com apenas 25 anos de idade. Outra vitoriosa questionada foi Lady Gaga por American Horror Story: Hotel (2015), uma conquista que até fãs da cantora receberam com estranheza.

Como tudo na vida, pensar no brinde imediato e não no legado da instituição traz consequências. Se até os artistas fazem piada, o prêmio certamente está em crise – Jim Carrey falou com ironia que não vê a hora de levar o Globo de Ouro pela terceira vez. Se essa descrença se espalhar mais, e a HPFA parece se esforçar para isso, há o risco de terminarem todas as benesses que seus associados recebem.

Entretanto, trata-se de um risco pequeno, por enquanto. Estilistas continuam a emprestar modelitos para as estrelas desfilarem no tapete vermelho. Canais fúteis continuam com suas coberturas fashionistas do que deveria ser um prêmio de cinema e TV. Assim, talvez o Globo de Ouro tenha sua existência garantida, mas sua credibilidade despenca a cada ano. São escolhas.

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1 Comentário

  • Curiosamente, o Oscar não difere muito da logística de mimos e cartas marcadas com celebridades norte-americanas, mas não é tratado da mesma forma pela Grande Mídia – que ainda insiste em chamá-lo de “a maior premiação do Cinema” em tom de prestígio!

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