ESPECIAIS ESTREIAS

O humano no humanitário

O mundo não é apenas preto e branco, mas várias nuances de cinza (sem qualquer relação com o best-seller sadomasoquista). Três filmes atuais mostram essa realidade quando o assunto é ajuda humanitária, com todos os percalços que surgem quando entra em cena o melhor e o pior do fator humano.

O franco-belga Os Cavaleiros Brancos se passa na África e acompanha membros de uma ONG que coletam crianças órfãs com o pretexto de lhes oferecer educação e moradia em um centro local. Na verdade, a missão é encontrar crianças para serem adotadas na Europa.

O longa traz personagem ambíguos, que estão empenhados em ajudar, mas não veem problemas em flexibilizar a ética. Há o líder tribal que atua quase como um agente do tráfico humano, pais que abrem mão dos filhos para que tenham melhores oportunidades, entre outros. O roteiro não traz soluções, mas traça um amplo e sincero panorama.

O brasileiro Fome é protagonizado por um mendigo (Jean-Claude Bernardet, de Periscópio) e mescla cenas documentais para aprofundar-se na questão dos moradores de rua. Um exemplo dessa discussão que foge da obviedade está na figura das pessoas que oferecem comida ou outro tipo de auxílio imediato. Em seu discurso crítico, o filme apresenta tais atitudes como um paliativo para aplacar a culpa burguesa e não como um genuíno gesto de bondade.

Cena do filme Fome (2015)

Cena do filme Fome (2015)

Como em Os Cavaleiros Brancos, Fome deixa seu espectador com mais perguntas do que respostas. O andamento mais vagaroso da produção é uma escolha para convidar o espectador para reflexões sobre as problematizações levantadas.

Com um tom mais cômico, dentro do possível dado o tema, o espanhol Um Dia Perfeito se passa nos Balcãs dos anos 1990. Na terra em guerra, um grupo de trabalhadores humanitários precisa remover um cadáver de dentro de um poço, mas a situação se mostra mais complexa do que parece a princípio.

Cena do filme Um Dia Perfeito (2015)

Cena do filme Um Dia Perfeito (2015)

Conforme os personagens se desdobram para solucionar o problema, o roteiro faz desfilar pela tela várias mazelas secundárias do conflito armado: aproveitadores em geral, a constante ameaça de minas terrestres, o levante de discursos de ódio, medo de retaliações, entre outros. Com o absurdo da situação, o filme opta por um humor sombrio, uma forma mais saudável de lidar com tudo isso.

Apesar de usas propostas distintas, os três filmes causam efeitos semelhantes: uma onda de pessimismo com a humanidade e a vontade de que um meteoro dê um Ctrl+Alt+Del na bagaça toda. Por outro lado, os títulos nos fazem refletir sobre o mundo (cagado) onde vivemos.

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