ESPECIAIS ESTREIAS

Os Dez Mandamentos: Propaganda é a alma do negócio

Este texto não é uma crítica de Os Dez Mandamentos – O Filme (2016). E nem poderia ser. O filme não será exibido para a imprensa antes da estreia, que acontece no dia 28 de janeiro. Os jornalistas foram convidados a cobrir o tapete vermelho da pré-estreia, mas não poderão entrar na sala de projeção.

Quando isso acontece, alguns veículos mandam seus críticos para as primeiras sessões comerciais para publicar um texto tardio. No caso de Os Dez Mandamentos não será tão fácil: com mais de 2 milhões de ingressos já vendidos, as sessões do final de semana estão esgotadas em muitos cinemas.

Pelo que foi apurado em portais como UOL, esse sucesso de bilheteria não é devido ao anseio do público, pelo menos não diretamente. Pessoas ligadas à Igreja Universal compraram milhares de ingressos de uma vez só. Há relatos de que um complexo no centro de São Paulo recebeu a visita de um homem que adquiriu em dinheiro todos os ingressos para Os Dez Mandamentos no final de semana de estreia e para o tal gastou quase R$ 150 mil.

Os bilhetes são revendidos com desconto e até distribuídos para fiéis em cultos nos templos. Portanto, o dinheiro gasto nas bilheterias não irá retornar totalmente para a Universal, ligada à Record que é a produtora do longa.

Cadê o lucro?

Portanto, essa operação nos cinemas dá prejuízo. Mas por que então fazê-la? Voltemos um pouco no tempo para buscar a resposta – não tanto até a época de Moisés, mas aos anos 1970. Com o lançamento de Star Wars (1977), George Lucas ensinou ao mundo que o que dá lucro no cinema não é ingresso, mas licenciamento de produtos.

Até onde se sabe, a Record não planeja lançar uma linha de action figures ou material escolar temático. O que se quer aqui é fazer barulho, quebrar recordes, criar um factoide de que o filme é um grande sucesso.

Assim, Os Dez Mandamentos no cinema pode ser mais um marco na campanha Sou Universal, que vincula anúncios na Record com anônimos e celebridades que seguem os preceitos da Igreja da casa. Os números fabricados do lançamento do filme fortalecerão os discursos de pastores para atrair mais fiéis para seus cultos.

E o cinema? Como fica nisso tudo?

Para os exibidores, é um ótimo negócio porque os ingressos estão pagos e, se nem todos forem revendidos ou doados, não faz diferença.

Para as distribuidoras concorrentes, Os Dez Mandamentos será lançado com 1.000 cópias e congestionará o circuito exibidor, que conta com cerca de 3.000 salas. Outros filmes serão adiados ou terão seus lançamentos reduzidos.

Para a classe produtora, fica um sentimento de desesperança. Em 2015, apenas comédias popularescas ficaram acima da marca de 2 milhões de espectadores. Os Dez Mandamentos conquistou tal feito antes mesmo de estrear. Quem quer produzir filmes de maneira independente leva mais um golpe – com mais de uma interpretação possível para a palavra.

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