ESPECIAIS ESTREIAS

Precisamos falar sobre (e com) sotaques

Em 2016, entre filmes que já passaram pelo circuito e estreias programadas, Mariana Ximenes deve estrelar seis produções. Em pelo menos duas delas, há um perturbador detalhe me comum: a falta de respeito com o sotaque dos personagens.

Em Prova de Coragem, os atores trocam “você” por “tu” e soltam uns “bá” entre os diálogos, mas trata-se de um minimalismo preguiçoso para emular o falar gaúcho. Como não fica clara a origem da artista vivida por Ximenes, o lapso é perdoável, mas a mesma concessão não é possível para seu parceiro de cena. Armando Babaioff interpreta um gaúcho, como fica evidente pelas cenas de sua adolescência, desempenhada por um ator mais jovem com sotaque impecável. Bola fora.

A mesma sina recai sobre Mariana na comédia Uma Loucura de Mulher. Sua personagem foge para o Rio de Janeiro e reencontra o primeiro namorado, que deve ter batido a cabeça em algum acidente que lhe causou efeito na fala, pois o rapaz perdeu o sotaque carioca na passagem para a vida adulta. Se o roteiro incluísse essa cena para explicar a entonação paulista de Sergio Guizé, poderia render um momento mais engraçado do que a média geral do filme.

Cena do filme O Outro Lado do Paraíso (2015)

Cena do filme O Outro Lado do Paraíso (2015)

Não é só com longas estrelados por Mariana Ximenes que o descaso linguístico acontece. Em O Outro Lado do Paraíso, vemos uma família que sai de Minas Gerais para Brasília, cujos membros falam com algo que lembra o sotaque mineiro, mas misturado com o acento original do ator.

Uma das alegrias de viajar (na estrada ou no cinema) é entrar em contato com diferentes culturas, e o sotaque faz parte do pacote. Por isso que é salutar respeitar o modo de falar dos personagens, o que também pode funcionar como fermenta para o ator alcançar uma interpretação mais convincente.

Outra razão que justifica a exigência é o fato de o cinema brasileiro ser viciado na figura do preparador de elenco. Se nos acostumamos a empregar esse profissional de relevância muitas vezes questionável, que seja usado também para cuidar dos sotaques com a mesma fibra com que lidam com atores em outros quesitos.

Cena do filme Vidas Partidas (2016)

Cena do filme Vidas Partidas (2016)

Se hoje temos esses exemplos, e já passamos pelas vergonhas que são os sotaques em Uma Professora Muito Maluquinha (2011) e O Tempo e o Vento (2013); é triste contatar que essa situação está longe de terminar. Deve estrear em agosto Vidas Partidas, um drama sobre violência doméstica no qual o ouvido tem dificuldades de acreditar nos personagens com sotaques paulista e carioca no Recife e em João Pessoa. As locações nordestinas foram incluídas no roteiro apenas para conseguir apoio de fundos locais.

Para terminar o texto em tom positivo, seguem exemplos nos quais os personagens usam entonações corretas e diferente das origens dos atores: Tropa de Elite (2007), Vai que Dá Certo (2013), Que Horas Ela Volta? (2015) e Praia do Futuro (2014). Eis as provas de que é possível fazer um trabalho bem feito.

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