ESPECIAIS

Visitamos o set da produção nacional Legalidade

Década de 60, auge da Guerra Fria. O mundo se divide entre os blocos capitalista e socialista, com EUA e União Soviética exercendo sua influência sobre o público e o privado mundo afora. Acuado por “forças terríveis”, o presidente de um país latino-americano renuncia ao cargo. Militares planejam impedir a posse do vice-presidente que estava em viagem oficial à China (uma “ameaça comunista”, portanto), mas o golpe é impedido por um jovem governador que arma a população e usa o rádio para propagar a campanha de resistência. O que parece roteiro de um thriller político é um capítulo da História do Brasil: a Campanha da Legalidade foi protagonizada por Leonel Brizola ao longo de duas semanas em 1961 e garantiu a posse do vice João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros.

Corta para o outono de 2017. O Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, e a Praça da Matriz, local das manifestações populares de apoio a Jango, são alguns dos cenários de Legalidade – O Filme. A direção é do gaúcho Zeca Brito, que escreveu o roteiro com Léo Garcia.

Como começam todas as boas histórias, a ideia de rodar Legalidade surgiu numa mesa de bar quando Zeca e Léo descobriram que tinham recebido de seus pais a mesma sugestão, a de resgatar esse episódio tão esquecido e ao mesmo tempo tão atual e relevante. “Brizola transforma a Secretaria de Comunicação em Secretaria de Defesa, transfere o aparato da Brigada Militar para uma emissora de rádio e de lá convoca o Brasil e a população civil a resistir e a tomar consciência do que estava sendo costurado em Brasília”, contou Zeca Brito no intervalo de uma diária de filmagem no Arquivo Público do Rio Grande do Sul.

Legalidade mistura vida real e ficção, ou revolução e amor. Cléo Pires é Cecília, uma jornalista do Washington Post que chega a Porto Alegre para cobrir a resistência de Brizola. Acaba por conquistar os corações de dois irmãos, Luis Carlos e Tonho, interpretados por Fernando Alves Pinto e José Henrique Ligabue. Zeca diz que escreveu Cecília pensando em Cléo, uma amiga que fez no set de “O Tempo e O Vento” (2013), rodado em Bagé – cidade natal do diretor, na fronteira com o Uruguai.

Para um Leonel Brizola, dois atores. Sapiran Brito, o pai do diretor, faz o Brizola dos anos 80, depois da volta do exílio. A semelhança física dos dois impressiona. “Acho que sou mais parecido com o ‘velho’ por dentro”, diz Sapiran, ator e militante trabalhista que lecionou numa das milhares de “brizoletas”, as escolas o então governador “plantou” por todo o Rio Grande do Sul. Foi nos “guardados” de Sapiran – fotos autografadas, recortes de jornais e revistas sobre a trajetória de Brizola – que Zeca iniciou a pesquisa para o roteiro.

Leonardo Machado (Kikito de Melhor Ator por “Em Teu Nome” no Festival de Gramado de 2009) interpreta o Brizola jovem que lidera a Campanha da Legalidade. Para conquistar o papel, o ator gaúcho chegou ao teste devidamente caracterizado: bigode fino, cabelos lambidos com gel, terno. Estudou discursos e tentou reproduzir gestos e oratória. E assim venceu a pretensão inicial da produção, a de escalar um ator com grande apelo midiático no eixo Rio-São Paulo. “Quando mostrei que tínhamos um Brizola gaúcho e incontestável tive pequeno surto bairrista de felicidade”, lembra Zeca. “Encontrar aqui um ator tão verossímil é um presente.”

Para unificar a atuação, Sapiran Brito e Leonardo Machado se prepararam juntos. Primeiro em Bagé, onde Sapiran mora. Lá ficaram um tempo lendo o material dos “guardados”, ouvindo antigos discursos de Brizola, tomando vinho. Em Porto Alegre fizeram oficinas com a preparadora de elenco Carla Cassapo a fim de afinar a expressão corporal. “Ele (o Brizola) tem um gestual muito característico, movimentos expansivos com força na mão. É como se estivesse segurando uma cuia (de chimarrão). E tem aquele dedo (indicador) que não é um dedo em riste, mas um alerta”, descreve Machado.

Outra protagonista importante de Legalidade é Porto Alegre. Grande parte das cenas foram rodadas no Palácio Piratini, onde a campanha realmente se desenrolou. A capital gaúcha também serviu como Montevideo, Punta del Este e até um pedacinho de Brasília. Assim como na Campanha da Legalidade, produção teve o apoio irrestrito da Brigada Militar, a PM gaúcha, que emprestou cavalos e armas como a metralhadora que Brizola carregava durante a resistência.

Não é apenas na arquitetura da cidade que a história de décadas atrás continua presente. O diretor de produção Glauco Urbim lembra de uma senhorinha que perguntou se podia levar algumas amigas para fazer figuração na cena épica do retorno de Jango ao Brasil. Podia. Ela trouxe dez. E durante a filmagem, sem que ninguém pedisse, começou a cantar o Hino da Legalidade.

Essa é a primeira grande empreitada da carreira de Zeca Brito como diretor. A experiência como assistente de direção em grandes produções (como “O Tempo e o Vento”) deu a ele a cancha de bastidores e a preocupação em otimizar o orçamento investido. Um exemplo? Numa cena rodada dentro de um avião, o ideal segundo o diretor seria ter um protótipo que simulasse o balanço de uma aeronave durante o voo. “Não tínhamos o protótipo, mas tínhamos ótimos figurantes que estavam dispostos a dar uma sacudidinha e eu sacudi a câmera. Ficou legal”, conta Zeca. “É um compromisso de um filme feito com recursos públicos num tempo em que há uma devassidão sobre as coisas públicas. Quero que as pessoas vejam ali o orçamento que foi buscado e ao mesmo tempo retratar a grandiosidade da época.”

A relação entre os episódios da crônica política atual e os eventos de 1961 é inevitável. “Em 2016 e 2017, quando começamos a discutir as instituições, a constituição e o voto popular de direito, se estabelece um paralelo com 1961”, diz Zeca Brito. “Acho que a gente está falando do Brasil de ontem e de hoje.”

Legalidade – O Filme é uma produção da Prana Filmes e tem estreia prevista para 2018.

 

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