FESTIVAIS

Anjos de Ipanema: Reunião de amigos

Dizem que o amor é a maior força do universo. Por mais que haja repressão, ele encontra refúgios para se propagar. O Rio de Janeiro do começo dos anos 1970 foi um dos períodos no qual o amor pelejou: violência policial, censura, uma onda conservadora e tantos outros percalços formavam uma árida ordem do dia. Mesmo assim, os jovens da classe média encontravam na praia – mais especificamente ao lado do píer – um local de encontro, de conversas e de amizade.

O documentário Os Anjos de Ipanema mostra esses personagens que tentavam passar ao largo dos Anos de Chumbo, mais ligados ao movimento hippie. A produção compete no Cine Ceará 2018. A diretora Conceição Senna era uma dessas frequentadoras do píer e promove um reencontro com essas figuras para relembrar o passado. Assim, o documentário visita diversos temas inerentes àquela geração: liberdade sexual, choque de gerações, uso de drogas e por aí vai.

Como se trata de um filme de reafirmação de afetos, falta apuro racional. Do lado textual, o longa se priva do aprofundamento em temas interessantes. O exemplo claro desse descuido está na questão da depilação feminina. As mulheres expressavam sua libertação individual ao não se depilarem, como ainda hoje ocorre. De seu lado, os homens aceitavam a onda a contragosto, como ainda hoje ocorre. Entretanto, não há qualquer problematização acerca dessa contradição machista dentro de um meio que se julga progressista.

Já do ponto de vista audiovisual, o excesso de intimidade entre documentarista e entrevistados cria enquadramentos pouco favoráveis. A câmera só focaliza os depoentes, sem considerar o melhor ângulo ou o melhor cenário, sem se esforçar em criar planos mais bem pensados. É como se a força amorosa do reencontro não desse espaço para que todas as potências da câmera fossem exploradas para a construção de um discurso cinematográfico mais pleno.

Com isso, Anjos de Ipanema se mostra um registro de um local, uma época e uma geração. Mas para quem não está mergulhado naquela comunhão, o documentário parece distanciado, com a sensação de entrar de penetra em uma festa íntima e não se entender as piadas internas dos convidados.

Cotação: **

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