ENTREVISTAS FESTIVAIS

Festival Noia: (Re)construção de memórias

O documentário familiar é um gênero em alta nos últimos anos. Por ele, trabalha-se no microcosmo da intimidade questões do macrocosmo social, como Os Dias com Ele (2012) e Diário de uma Busca (2010) sobre as reverberações familiares da luta contra a ditadura. Outra possibilidade é encontrar nos filmes um espelho para dilemas semelhantes na vida do espectador. É nessa via que trafegam Açúcar Queimado e Travessia, curtas que fazem parte da mostra cearense do Festival Noia 2017.

“Com o filme, resgatei memórias de uma época da qual não tenho lembranças”, disse o diretor Ed Borges, de Açúcar Queimado. No documentário, ele entrevista sua mãe, que relata a luta do cineasta contra a meningite, doença que o acometeu aos dois anos de idade e deixou marcas permanentes no seu corpo.

“Ao contar minha história, contava a história de minha mãe”, relatou. “Ela ainda carrega marcas psicológicas”. Por causa de intervenções cirúrgicas nas pernas, Ed ficou acamado por meses e teve de reaprender a caminhar.

Cena do filme Travessia (2017)

Yuri Peixoto levou para a tela a história de sua bisavó materna. “Ela é uma mulher que sempre esteve presente em minha vida pela ausência”, afirmou o diretor de Travessia. Maria Odete morreu alguns anos antes do nascimento do realizador, mas sua irmã partilha com ela o mesmo nome e aniversário. “Sempre teve uma aura estranha nas festas.”

“Por mais que eu tivesse acesso a fatos sobre ela, percebi que seria impossível conhecer alguém com quem nunca convivi”, disse. Em sua pesquisa, Yuri herdou a coleção de livros da bisavó, muitos com anotações feitas por elas, e ouviu suas canções favoritas. Uma delas, composta por Milton Nascimento, dá nome a seu filme e faz parte da trilha, em uma ressignificação dos versos.

Com a sinceridade impressa nos documentários, o espectador projeta suas próprias experiências de vida para equiparar com o que se vê na tela. Seja uma enfermidade marcante ou um antepassado muito presente postumamente. “Sei muito mais de mim mesmo depois de fazer o filme”, constatou Ed.

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