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Em BACURAU, Kleber Mendonça Filho mergulha no sertão nordestino

A imagem mostra uma estrada de terra, com pó levantado após a passagem de um caminhão. Há também uma placa em que lê "BACURAU 17Km: Se for, vai na paz"

Kleber Mendonça e Juliano Dornelles se conheceram em 2005 quando trabalharam juntos no curta Eletrodoméstica – dirigido por Mendonça e com Dornelles como diretor de arte. Desde então, a parceria continuou em projetos como O Som ao Redor e Aquarius. Em Bacurau, entretanto, eles dividem a direção pela primeira vez. A ideia do filme surgiu em 2009, durante o Festival de Brasília, com a première de Recife Frio. A maneira com que as pessoas que vivem longe das grandes cidades eram retratadas em diversas produções chamou a atenção da dupla. Esse foi o pontapé inicial para a nova produção, que estreou recentemente nos cinemas e faturou o prêmio do júri no Festival de Cannes e também de melhor filme estrangeiro no Festival de Cinema de Munique. Um dos concorrentes para representar o Brasil no Oscar do próximo ano, acabou perdendo para Uma Vida Invisível, de Karim Aïnouz.

Pessoas com lenços nas mãos

Bárbara Colen e Wilson Rabelo no filme Bacurau / Crédito: Victor Jucá

“Pensamos em Bacurau juntos. Nunca foi uma questão de quem vai dirigir o filme, sempre foi ‘a gente vai fazer esse filme juntos’”, explica Mendonça, durante a coletiva de imprensa realizada em São Paulo. Ele revela que, antes das filmagens, contou para Emilie Lesclaux, (produtora do longa e esposa de Mendonça) sobre a preocupação no set de filmagem em tomar decisões na frente de 150 pessoas, como uma dupla. “No final acabou sendo incrível”, conta.

A história se passa na fictícia Bacurau, logo após a morte da matriarca da cidade (vivida por Lia de Itamaracá). Alguns estranhos acontecimentos tiram o sossego dos moradores, que são obrigados a se armarem para se proteger de invasores. Mendonça explica que em vários filmes brasileiros é usado a premissa em que grupos urbanos têm um comportamento predatório sobre comunidades pequenas e simples da região. “Bacurau é um filme sobre a união de um povo que se organiza para sobreviver. É sobre a nossa história, do Nordeste marcada pela violência”, diz.

mulher com avental coberto de sangue

Sônia Braga é a médica Domingas no longa / Crédito: Victor Jucá

Segundo Mendonça, um filme que retrate um pequeno vilarejo invadido por estrangeiros desconhecidos não precisa necessariamente passar uma mensagem política. Ele afirma que nunca teve a intenção de fazer isso em seus trabalhos. “Quando eu escrevo um filme eu não penso em passar uma mensagem. Meus filmes têm conflitos que se anulam”, conta. “Bacurau é cheio de reflexões sobre a vida do mundo, do Brasil, do Nordeste. Da visão do Brasil no mundo e do Nordeste brasileiro”. Para Dornelles, Bacurau é sobre história e resistência. “As melhores ficções cientificas não detalham”, argumenta.

Filmado em Barra, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte com cerca de 80 moradores, a produção aproveitou os próprios habitantes no elenco. Recentemente, o filme foi exibido na praça do povoado, e contou com a presença da atriz Sônia Braga, que interpreta o papel da médica Domingas. Sônia conta que manteve uma relação bem próxima com os moradores de Barra. “Eu não queria só estar lá. Não queria fazer só um filme, queria me entender também. Na entrada da cidade, tem uma árvore. Sempre adorei essa árvore e me senti como ela, como se nunca tivesse saído de lá e tivesse criado raízes mais profundas”, diz a atriz em sua segunda pareceria (a primeira em Aquarius) com Mendonça e Dornelles.

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