CRÍTICAS ENTREVISTAS ESTREIAS

A Viagem de Meu Pai: Inversão de papéis

De todas as estreias da semana, esta é a de melhor timing: o Dia dos Pais, comemorado no domingo. Mas, já fica o aviso, é programa para pais e filhos adultos. A Viagem de Meu Pai lança um olhar terno e bem-humorado sobre a complicada inversão de papéis que envolve a chegada da velhice. Diretor e roteirista de comédias como As Mulheres do Sexto Andar e Pedalando com Molière, Philippe Le Guay mescla humor e melancolia nessa trama delicada, que reúne duas gerações do cinema francês: Jean Rochefort (Caindo no Ridículo) e Sandrine Kiberlain (Uma Juíza Sem Juízo).

Ele é Claude, um octogenário imponente, mas com sinais de Alzheimer. Apesar de seus esquecimentos, não lhe falta energia para provocar confusão, o que inclui o assédio à empregada. Ele não quer ninguém para ajudá-lo e sua filha mais velha, Carole, trava uma batalha diária e desgastante para atendê-lo. Claude age como um menino travesso e é admirável como Rochefort traz dentro de si o velho e o garoto, em uma convivência um tanto desequilibrada.

Meu Pai

O diretor Le Guay fez parte da comitiva francesa que esteve em São Paulo em junho, para apresentar seu filme no Festival Varilux, e falou à PREVIEW sobre os desafios de adaptar a peça de Florian Zeller. “Criamos muitas coisas que não estão na peça. Por exemplo, a situação da jornada dele à Flórida. A peça se passava em um apartamento e era a conversa entre o pai e a filha. O marido dela também participava, então era como um triângulo”, explica o cineasta.

A afinidade entre Rochefort e Sandrine em cena não é apenas fruto de ensaio. “Sandrine e Jean se conhecem há 15 anos e quando ela perdeu seu pai, Jean foi muito presente e se tornou um pai substituto na vida real. É um amor genuíno”, revela Le Guay. “A ternura não era algo que precisamos ensaiar, mas tínhamos um roteiro para seguir, que incluía brigas feias entre eles. A personagem dela nunca reagia aos ataques do pai. É injusto. Ela está no limite e a capacidade de ‘apanhar’ e se calar, para mim, a torna uma heroína.”

Com uma narrativa que passeia pelo tempo, com direito a flashbacks, o cineasta ilumina aos poucos os traumas e as pendências que permeiam a vida da família. Claude sofre de Alzheimer, mas o cineasta não faz disso um escape para o dramalhão. Ao contrário, acerta com um humor refinado e emociona nos detalhes, como o olhar terno de Carole diante do pai.

Cotação: ***1/2

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