ENTREVISTAS ESTREIAS

Charlie Hunnam fala dos desafios de viver Papillon

Você pode até se perguntar por que refilmar Papillon se o clássico com Steve McQueen e Dustin Hoffman era tão bom. Mas a nova geração nem conhece a produção de 1973, e essa é uma história real que merece ser redescoberta.

Charlie Hunnam (Rei Arthur: A Lenda da Espada) é o ladrão Henri “Papillon” Charrière e Rami Malek (da série Mr. Robot), o falsário Louis Degas. Nos anos 1930, ambos são enviados às Guianas Francesas, onde ficava a temida prisão da Ilha do Diabo. A inesperada amizade, as tentativas de fuga e as provações que passaram ali rendem um emocionante drama, sustentado por uma dupla de protagonistas nota 10.

Na entrevista a seguir, Charlie Hunnam conta como foram os bastidores.

O que pode contar sobre seu personagem?

CHARLIE HUNNAM – Henri Charrière veio a ser chamado de Papillon por causa da tatuagem de borboleta (papillon em francês) no seu peito. Era o sinal do ladrão na tradição do simbolismo do submundo na França daquele tempo e ele tinha certo orgulho daquela imagem.

Além do roteiro do clássico de 1973, o livro Papillon foi uma fonte importante?  

O romance autobiográfico de Charrière ajudou muito, mas mais fundamental ainda foi o livro A Ilha do Diabo (Dry Guillotine), de René Belbenoît, que antes de ser preso na Ilha do Diabo trabalhava como jornalista. Seu relato traz uma visão analítica daquela prisão, que era como uma indústria, pois o governo usava os prisioneiros como operários. Há muita pressão no mundo agora, com regime opressores, então é possível aplicar o clima político daquela época no mundo atual.

Com foi ser dirigido por Michael Noer?

Ele tem uma abordagem mais antropológica do fazer cinema. Senta-se e observa o máximo possível e tem um estilo documental muito interessante. Não é o tipo de cineasta que precisa ter o controle total da narrativa e fica entusiasmado quando sente que as coisas estão tomando vida própria. Muito do filme nasceu do improviso.

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É verdade que foi você que convenceu Rami Malek a aceitar o papel de Louis Dega?

Eu estava fixado na ideia de que seria Rami ou ninguém mais, mas havia conflitos de agenda e alguns financeiros também. Ele chegou a avisar que faria outro filme, e foi aí que liguei diretamente para ele, mesmo sem o conhecer muito, e fazer uma “leve” pressão. Disse para ele não desistir e que se não estivesse no elenco, não haveria filme, era nós dois ou nada.

Houve um preparo físico para mostrar as privações do personagem na prisão?

Sim, fiz dois filmes seguidos em que tive de perder muito peso. Para Z: A Cidade Perdida emagreci 18 quilos no período de 10 semanas. Acontece algo com a mente e o corpo quando se passa fome constantemente. Você é obrigado a negar um dos instintos mais primitivos, que é se alimentar. Em Z, o fato de meu parceiro de elenco ter emagrecido junto comigo me fez ter consciência do quanto esses laços de amizade foram importantes. Passamos fome juntos.

E como foi com Papillon?

Era complicado voltar para o hotel, dormir em uma cama confortável e no dia seguinte chegar lá e tentar convencer como alguém que estava em uma solitária por 5 anos, um confinamento de silêncio e solidão. Eu me sentia uma fraude e achei que o mínimo que podia fazer era tentar algo para ter ao menos um vislumbre de como seria estar naquela situação. Então pedi a Michael que por pelo menos cinco dias o set ficasse em silêncio. As pessoas começaram a sussurrar. Eu também queria sentir o isolamento e pedi para que ninguém se dirigisse a mim. Michael abraçou a ideia e passamos a nos comunicar por bilhetes, então fiquei sem falar com ninguém por uns cinco dias. Também não comi nada e mal tomei água. Sei que não cheguei nem perto do que foi para aqueles homens, mas foi uma busca pela autenticidade. Foi meio louco e intenso emocionalmente.

Como espera que o público receba o filme?

Espero que o público sinta que essa é uma história de companheirismo e generosidade em um ambiente muito difícil. Vejo como um testamento da vontade do homem de suportar dificuldades. Tenho estado muito pessimista diante da realidade atual e um filme assim nos dá esperança de que ainda é possível a conexão entre as pessoas.

 

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