ENTREVISTAS ESTREIAS

“É um mosaico da solidão”, diz Frederico Machado sobre Lamparina da Aurora

O maranhense Frederico da Cruz Machado é um faz tudo do cinema brasileiro independente. Além de cineasta, é proprietário da distribuidora Lume Filmes, comanda uma escola, uma sala de cinema e o Festival Internacional Lume de Cinema, realizado em várias capitais do Brasil. Como se não bastasse, lançou recentemente o canal de VOD (Video on Demand) Lume Channel.

São 20 anos dedicados à sétima arte, em um mercado nada amigável. Paixão e resistência são o mote de Machado, filho do renomado poeta e escritor Nauro Machado, falecido em 2015. Os poemas do pai, que versam sobre a morte, o sexo e a religião, são fonte constante da obra do diretor, que estreia Lamparina da Aurora, seu terceiro longa. Um casal de idosos (Buda Lira e Vera Barreto Leite) vive isolado em uma fazenda, até que recebe a visita de um jovem misterioso, que não se sabe de onde e para que veio. O filme é conduzido em clima de constante angústia, repleto de metáforas e elementos do suspense. Isso tudo embalado pelos poemas do falecido poeta Nauro Machado, pai do diretor.

Frederico Machado e Buda Lira nas filmagens

Realizado sem recursos públicos e com os alunos da escola Lume, o filme percorreu festivais e mostras (inclusive internacionais), onde recebeu alguns prêmios, como o melhor filme da Mostra Olhos Livres, em Tiradentes. “Como realizador me interessa o desenvolvimento psicológico dos personagens e como eles interagem com ​o outro, com a natureza e com as suas dores e medos. O filme é um mosaico da solidão”, explica o cineasta em entrevista à PREVIEW. “Quero fazer de minha obra um triste evangelho de solidão e angústia. A reverberação do silêncio que paira sobre os meus filmes reflete o mundo caótico de hoje e como se dá a criação artística e cinematográfica atualmente.”

Daí o foco de Machado no suspense existencial, um gênero que ele considera mais acessível “nesse momento de terror que vivemos como sociedade”. Segundo o diretor, os atores são coautores de seus filmes. “Sempre os escuto muito e converso bastante com eles antes de começar de fato a filmagem. Acredito que todos, seja da equipe técnica ou do elenco, sem exceção, contribuem para a alma do filme”, afirma. “Por ser uma produção independente e não seguir um método mais rígido, a liberdade de criação é enorme e torna o processo fascinante para todos.”

Do tipo elétrico, Machado não fica parado e já tem novo trabalho engatilhado: As Órbitas da Água, que já está em pré-produção. O quarto longa é a última parte da Trilogia Dantesca, do qual fazem parte O Exercício do Caos (2013) e O Signo das Tetas (2015), obras inspiradas na poesia do pai do artista. As filmagens serão em Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses, e a trama ambientada em uma vila de pescadores é sobre um casal corrompido pela presença de uma dupla de forasteiros. “É um filme em que o realismo fantástico e o cinema existencial coexistirão pacificamente. Cinema é cachoeira, mas também é terra, solo e raiz”, conclui.

Publicidade

Deixe o seu Comentário