ESTREIAS FESTIVAIS

Premiado em Gramado, Benzinho tem duas atrizes em estado de graça

Após passar pelos festivais de Sundance e Roterdã, o longa de Gustavo Pizzi saiu de Gramado com os Kikitos de melhor atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves. Ainda foi eleito o melhor longa nacional pelo Júri Popular e pela Crítica. Todos merecidíssimos. Benzinho marca o retorno do diretor a Gramado, depois da consagração de Riscado, em 2011, quando levou quatro Kikitos (melhor diretor, roteiro, atriz para Karine Teles e trilha musical).

A produção tem o selo de filme família, literalmente. O roteiro é do diretor e da atriz, que eram casados e colocam suas experiências na tela. Seus filhos, Arthur e Francisco, vivem os pequenos gêmeos, enquanto o sobrinho de Karine, Luan Teles, encarna o filho do meio. A prole da protagonista Irene (Karine em atuação sublime) e de seu marido Klaus (Otávio Müller) se completa com o primogênito Fernando (o estreante Konstantinos Sarris), que está prestes a ir embora para jogar handebol na Alemanha.

“Eu e Karine saímos de casa muito cedo e agora que temos filhos começamos a pensar em como esse momento deve ter sido duro para nossos pais”, comenta o cineasta em entrevista coletiva. A síndrome do ninho vazio está no centro da narrativa, como um combustível estranho na maratona diária de Irene, que se divide entre os afazeres domésticos, um trabalho autônomo e os estudos (ela está prestes a concluir o ensino médio).

Se pela frustração profissional do marido Klaus o enredo ilumina a classe média baixa brasileira – em tom cômico, vale ressaltar -, a violência doméstica ganha espaço pela personagem Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene, que busca abrigo na casa dela com o filho após apanhar do marido (César Troncoso).

“No Brasil não há como falar do universo feminino sem tocar na violência contra a mulher, que está no jornal todos os dias e precisa ser posta à luz”, diz Karine. “O ponto de vista é o da Irene porque por mais que muitos pais sejam presentes, a mulher não só toca a rotina da casa como é a grande responsável pela segurança emocional da família, e esse é um trabalho monesprezado, quase invisível.”

Para Adriana Esteves, a dor do ninho vazio independe da permanência dos outros filhos na casa. “Você pode ter quatro filhos, mas basta um sair que a gente morre”, diz. “E essa saída é também uma constatação de que o tempo passou e que aquele ser que fazia nossa autoestima inflar por precisar tanto da mãe, agora já não precisa mais, e o vazio é muito maior se a mulher não tem outra função na sociedade, não estruturou uma vida profissional ou alguma atividade.”

Além das personagens humanas, há outra força pulsante em cena: as três casas que formam o patrimônio da família – a casa em que eles moram, que está caindo aos pedaços, a casa de praia, que precisa ser vendida, e a casa em construção, cuja obra está parada. “A gente tem uma história que a princiípio seria muito simples, sobre essa mãe diante da partida de um dos filhos, e era preciso mostrar o que acontece na cabeça da personagem”, explica o diretor.

“A casa em que moram e a da praia são naturalistas, mas cheias de detalhes que ajudam a contar a história, são pequenas riquezas cenográficas que as tornam personagens, são a alma da família  e a cabeça da Irene”, completa Karine. “Tanto as casas quanto Irene estão em transformação, então Benzinho narra o rito de passagem dessa mulher, que vai reconstruir seu espaço, sua vida.”

 

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