ENTREVISTAS ESTREIAS

Maria Madalena: A hora e a vez da apóstola

2017 foi um ano especialmente marcante para as mulheres em Hollywood. E não apenas pela repercussão das denúncias de assédio sexual e protestos contra desigualdade salarial. Grandes papéis femininos valorizaram telonas e telinhas. As premiadas séries Big Little Lies, The Crown, The Marvelous Mrs. Maisel e The Handmaids’s Tale, por exemplo. Nos cinemas, Mulher-Maravilha foi o abre alas para outras personagens poderosas, cada uma a sua maneira, em filmes como Três Anúncios Para Um Crime, A Forma da Água, Em Pedaços e The Post: A Guerra Secreta. Entre figuras histórias e fictícias, uma talvez seja o mais polêmico objeto de escrutínio: Maria Madalena, sagrada “Apóstola dos Apóstolos” pelo Papa Francisco em 2016. Nem sempre foi assim. Em 591, o Papa Gregório afirmou que Maria Madalena era uma prostituta.

O desejo de corrigir uma injustiça de séculos foi um dos motores para a realização de Maria Madalena, estrelado por Rooney Mara, que chega aos cinemas brasileiros no mês do Dia Internacional da Mulher (8 de março) e da Sexta-Feira Santa (30 de março). Segundo os evangelhos cristãos, Maria Madalena foi testemunha da crucificação de Jesus Cristo e a primeira a vê-lo ressuscitado (a Páscoa neste ano cai em 1º de abril). “O que aconteceu com Maria Madalena e  sua identidade  ao longo dos séculos  foi uma farsa”, diz Philippa Goslett, que assina o roteiro em parceria com a dramaturga Helen Edmundson. “Essa era a oportunidade de dar voz a alguém que foi  calada  por  muito  tempo.”

A saga de Jesus Cristo inspirou várias gerações de cineastas, de Píer Paolo Pasolini (O Evangelho Segundo São Mateus) e Martin  Scorsese  (A Última Tentação de Cristo) até Mel Gibson (A Paixão de Cristo) e Ron Howard (O Código Da Vinci). Os produtores Iain Canning e Emile Sherman decidiram recontá-la sob outro prisma. Uma descoberta arqueológica plantou  a semente. “Em 1945, encontraram fragmentos de pergaminho no Egito e na Grécia que eram, supostamente, o evangelho de Maria Madalena, e achamos que seria interessante destacar uma mulher das histórias bíblicas”, diz Canning. “Quando fazemos um filme, buscamos alguma ressonância contemporânea, senão não temos plateia. Havia espaço para resgatar Maria Madalena, e a perspectiva feminina da vida e morte de Cristo nos pareceu uma abordagem inédita que também permitiria discutir questões atuais.”

POLÊMICA

Durante as pesquisas, a roteirista Philippa Goslett tomou consciência do espinheiro em que estava mexendo. “Tivemos inúmeras conversas com rabinos, padres, historiadores judeus, estudiosos da Bíblia e arqueólogos,  e todos com quem conversamos discordavam uns dos outros!”, diz. “Cada um tinha uma visão distinta do movimento de Jesus e do  que  ele  significou,  então  foi fascinante. Mas o mais incrível foi que todos eles, sem exceção,  concordaram  que Maria Madalena  deveria  ser  considerada  uma  discípula  e  um  apóstolo.”

O Evangelho de Maria Madalena foi uma das principais fontes de consulta. “Ele apresenta Maria Madalena como uma figura chave dentro do movimento de Jesus e toma a forma de um debate entre Maria Madalena e os discípulos homens. Ela é bem presente na vida de Cristo e tem um entendimento muito particular dos ensinamentos dele, o que tenta compartilhar com  os apóstolos”, explica. “O  fato  de ser  mulher e ter  uma visão própria não  agrada  alguns  dos  discípulos,  especialmente  Pedro (interpretado por Chewitel Ejiofor),  e  isso  resulta  em  uma  dinâmica fascinante.”

Mais do que Pedro, contudo, o personagem que promete causar reação mais acalorada da plateia é o traídor de Jesus, Judas Iscariotes (Tahar Rahim), que revelou seu paradeiro por 30 moedas de prata. “A narrativa é fora de ordem, o tempo é  compactado,  e  demos  uma  motivação  para  Judas que é muito diferente da narrativa tradicional”, revela Philippa.

MALALA

O diretor Garth Davis dirigira Rooney Mara em Lion:  Uma Jornada Para Casa, e viu na atriz a graça e a serenidade de sua protagonista.  “Maria Madalena não é alguém que está aprendendo quem é, ela já tem a luz dentro dela, já tem uma conexão com Deus, mas ainda não sabe como expressá-la”, afirma. “Uma das minhas maiores fontes de inspiração foi Malala Yousafzai. Há algo na história dela que remete à Maria  Madalena.  Ela levou um tiro no rosto do Talibã porque queria ir para a escola, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, e no discurso perdoou o Talibã por seus atos. Esse ato de perdão e de amor foi fundamental para o filme.  Quando  li  o  roteiro, realmente  pensei  em  como  a história de Maria Madalena está nela.”

Apresentada na trama antes de conhecer Jesus, Maria Madalena parece forte, independente e, sob alguns aspectos, moderna. Rooney Mara explica: “Ela morava emMagdala, na Baixa Galiléia, e sua família de pescadores a pressiona para que se case e tenha filhos, mas ela resiste. Acho que gosta do trabalho de pesca e sente-se conectada a Deus de uma forma que não consegue entender e quer explorar mais. Ela sempre se achou muito diferente de todo mundo, então quando Jesus aparece, ele é a primeira pessoa que entende o que ela sente. Ela é valente e abandona a família para acompanhá-lo.”

Joaquin Phoenix interpreta Jesus. Garth Davis diz que queria dar um toque de realidade ao personagem e apresentá-lo como uma pessoa energética. “Joaquin tem uma sensibilidade incrível e também é muito espiritual e gentil. Não pensei em mais ninguém.” Os conflitos de Pedro com as crenças de Maria Madalena, seu relacionamento com Jesus e seu papel no grupo é um componente dinâmico central do filme. Enquanto Pedro acredita que Jesus vai conduzir as pessoas a uma nova ordem mundial, Maria Madalena se concentra na espiritualidade individual, na ideia de que, se alguém muda por dentro, uma mudança  maior  acontecerá  no  mundo  todo.

Educada em escola católica, Rooney Mara não se entusiasmou em fazer em um filme religioso. “Eu disse isso ao Garth (Davis) logo no início, mas ele garantiu que seria uma obra espiritual”, comenta a atriz. “Assim como Pedro e Maria tiraram lições  muito  diferentes das mensagens de Jesus,  espero que as  plateias deixem de lado  suas ideias preconcebidas de religião, como  eu tive de fazer, para encontrar algo realmente muito bonito no que Jesus  dizia,  não  como  uma  figura  religiosa,  mas  apenas  como  um homem, alguém que queria curar os males do mundo. Ele foi muito parecido com Gandhi ou Martin  Luther  King.”

 

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