ENTREVISTAS ESTREIAS

O Animal Cordial: Banquete de Sangue

São Paulo tem sofrido ondas de assaltos a restaurantes. A cineasta Gabriela Amaral Almeida e a diretora de arte Luana Demange, parceiras nos premiados curtas da cineasta, jantavam fora quando souberam que dois amigos foram atacados no mesmo lugar na semana anterior. “Isso é consequência da crise e começamos a questionar a sociedade em que vivemos, porque nos parece que quanto mais grades e proteções maior é o abismo entre classes e maior é a violência”, diz Gabriela em conversa com PREVIEW. O argumento que elas escreveram juntas para O Animal Cordial é inspirado nessa realidade, mas o primeiro longa de Gabriela é uma fábula urbana barra pesada, um slasher que vai chocar muita gente.

Gabriela Amaral Almeida

A história se passa em uma única noite dentro de um sofisticado restaurante na capital paulista. No fim do expediente, o local é invadido por dois ladrões armados. Murilo Benício interpreta Inácio, o dono do estabelecimento, Luciana Paes faz a fiel garçonete Sara e Irandhir Santos assume a pele do cozinheiro, Djair. Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro e Camila Morgado são os clientes e Humberto Carrão, Ariclenes Barroso, Thais Aguiar, Eduardo Gomes e Diego Avelino completam o elenco. O longa deu a Benício o prêmio de melhor ator no Festival do Rio 2017, e os troféus de melhor atriz e melhor diretora para Luciana e Gabriela no FantasPoa 2018.

Os assaltantes fazem todos reféns e o reduto gastronômico vira palco de diferentes embates: empregados x patrão, ricos x pobres, homens x mulheres, brancos x negros. O que acontece ali é um confronto entre civilização e barbárie porque soluções cordiais não estão no cardápio. “O espaço fechado e a situação limite, em que o ser humano se vê obrigado a conviver com o outro presencialmente e não virtualmente, com todas as diferenças entre si, funcionam como gatilho dramático e expõem os déficits que a gente tem nessa zona”, explica a roteirista e cineasta. “O Animal Cordial é sobre o medo de amar de uma forma mais ampla. É o medo de ser generoso, humilde, de amar passionalmente, de se entregar emocionalmente.”

Produzido pela RT Features, o filme fortalece o portfólio do gênero terror da produtora de Rodrigo Teixeira, que tem títulos como A Bruxa, de Robert Eggers, e Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra. Ao transformar sua câmera em uma lupa naquele microcosmo, Gabriela se desprende da fidelidade com o real. “O que me interessa na farsa, porque a farsa está perto da fábula, é aquela coisa maior que a vida, em que características humanas são deixadas de lado e se tornam míticas”, afirma. “Essa conexão é marcante nas artes plásticas, por exemplo, por isso me fascina mais o cubismo e o expressionismo do que o realismo, porque é através dessa distorção que a gente aumenta volumes para questões que precisam ser gritadas.” O estilo expressionista e farsesco que ela aplica no filme, portanto, seria uma forma de relaxar o público, que se distancia da realidade e sente-se a salvo para chegar perto do grotesco. E bota grotesco nisso.

Como os personagens se transformam, ou melhor, se revelam radicalmente no decorrer daquela noite, Gabriela decidiu fazer algo raro: filmar em ordem cronológica. “Manter uma certa linearidade de espaço e tempo foi fundamental para os atores irem crescendo de cena para cena”, comenta. O restaurante foi montado em estúdio para facilitar  cenografia e mise-en-scène, e ela cita o cinema americano dos anos 50 e 60 como referência. “John Ford, Elia Kazan e Hitchcock eram inventores de mundo e não é preciso estar no gênero fantástico para criar mundos”, afirma. “Eu fujo do naturalismo porque quero mostrar a farsa e assim ressaltar que a gente vive no teatro, porque usamos máscaras no âmbito social”.

O clímax dessa fábula sobre a violência é uma cena de sexo gráfica e sangrenta. “O filme é slasher e antislasher ao mesmo tempo, porque as duas características principais do slasher são a exploração da nudez feminina e a punição, já que as mulheres que transam são as primeiras a ser ceifadas pelo assassino masculino.” O público vai notar logo que a nudez e o sexo de O Animal Cordial estão na contramão e reforçam o teor feminista da trama.

Luciana Paes repete a colaboração com Gabriela depois do premiado curta A Mão que Afaga, mas trabalhar com os astros globais Murilo Benício, Camila Morgado e Irandhir Santos é novidade para a estreante em longas. Quem participou ativamente da escolha do elenco foi o produtor Rodrigo Teixeira. “Rodrigo é um parceiro criativo, o único produtor do País cujo trabalho está muito ligado à criação do próprio texto”, conta. “Quando leu a sinopse, que é o argumento principal do filme, ele já sugeriu o Murilo e isso criou uma demanda em mim, que escrevi o roteiro à luz do Murilo, e o mesmo aconteceu após a definição da Camila e dos outros.”

As filmagens duraram apenas 20 dias, mas um mês antes diretora e atores fizeram um trabalho de ensaios e leitura para o elenco se adequar à dramaturgia. Gabriela lembra que Irandhir Santos falou sobre um cozinheiro de buffet da cidade onde nasceu que se chamava Djair, que terminou por ser o nome do personagem. “O ator traz suas memórias e eu transformo em dramaturgia”, explica. “É uma forma de potencializar o personagem para que seu intérprete também seja dono dele.”

O Animal Cordial deveria ser o segundo longa de Gabriela. Ela já se programava para rodar A Sombra do Pai quando veio o convite de Rodrigo Teixeira para que escrevesse um roteiro. As filmagens já terminaram e a diretora revela que haverá um novo embate entre masculino e feminino. É a história de uma menina de 8 anos que tenta se comunicar com o pai, um pedreiro, e para ajudá-la tenta trazer a mãe dos mortos. “Trabalhamos com elementos do horror para abordar novamente a falta de comunhão entre as pessoas.” Gabriela está só começando e vale acompanhá-la de perto. A moça promete.

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1 Comentário

  • Que decepção!
    não consegui assistir este filme Animal Cordial, pois não esta mais em cartaz em São Paulo.
    O filme só teve duas salas de exibição em SP. E não ficou nem um mes em cartaz.
    enquanto isso somos obrigados, a ver as mesmas comedias enlatadas, de sempre nos cinemas.
    espero que o filme faça sucesso em DVD.

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