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O camaleão Júlio Andrade fala das estreias Maresia, Sob Pressão e Elis

Durante a exibição de Elis no Festival de Gramado, em agosto, teve gente que remexeu na cadeira quando o personagem Lennie Dale entrou em cena. “É o Júlio Andrade?”, ouvi cochicharem. Confesso que tive de focar o olhar para confirmar que era ele na pele do bailarino e fundador do lendário grupo Dzi Croquettes, que ensinou Elis a dançar. E tem sido assim. Em Gonzaga: De Pai Pra Filho, Júlio desaparece sob o manto de Gonzaguinha, e o que dizer da personificação de Raul Seixas no especial da Globo, Por Toda a Minha Vida. Seja o personagem fictício ou real, a verdade é que Júlio Andrade é um homem de mil faces – no melhor dos sentidos.

Quem ainda tem dúvida tem a chance de conferir sua versatilidade em três estreias. Nesta quinta (17) entram em cartaz Sob Pressão e Maresia, e semana que vem (24) é a vez de Elis.  A cinebiografia da “Pimentinha”, dirigida por Hugo Prata, conquistou três Kikitos no Festival de Gramado – melhor filme pelo júri popular, melhor atriz para Andreia Horta e melhor montagem para Tiago Feliciano. Em Sob Pressão (foto acima), de Andrucha Waddington, Júlio vive o cirurgião-chefe de um problemático hospital no Rio, que recebe ao mesmo tempo três pacientes gravemente feridos: um traficante, um policial e uma criança. Quem operar primeiro? O personagem rendeu uma noite de glória para Júlio no Festival do Rio, que dividiu o prêmio de melhor ator com Nelson Xavier (Comeback), mas levou o seu por dois filmes: Sob Pressão e Redemoinho.

Como se não bastasse, foi novamente premiado, desta vez no Cine Ceará, por Maresia, do estreante Marcos Guttmann. Inspirado no romance vencedor do Jabuti Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, o filme segue duas linhas temporais. No presente, conta a história de Gaspar Dias, um perito de arte obcecado pela obra de Emilio Vega, um pintor mítico morto há 50 anos. Nos anos 1930, o próprio artista é retratado em sua personalidade irascível e genialidade criativa. Quem faz os dois protagonistas? Júlio, claro. 2016 está bom demais para Júlio Andrade. Com 40 anos recém-completados, o gaúcho nascido em Porto Alegre bateu um papo descontraído com PREVIEW.

Tive o privilégio de já ter assistido a Elis, Sob Pressão e Maresia. É impressionante o quanto você some em seus personagens. E em Maresia tem papel duplo. Como foi administrar dois protagonistas?

JÚLIO ANDRADE – Maresia me chamou a atenção por isso, e também por uma paixão que senti pelo personagem Vega, o pintor que vive no mar. Nas filmagens, enfrentei um grande problema porque não sabia nadar e tinha um trauma de infância por conta disso. Até hoje não sei muito bem (risos), mas o projeto me deu coragem para aprender e disse para o diretor que ia vencer meu trauma. São coisas assim que me atraem, o fato de voltar desses filmes com algo novo para minha vida.

Você é o tipo do ator que para interpretar um pintor, por exemplo, aprende a pintar? Ou que para um papel como o do Gaspar, que é perito em arte, vai estudar essa técnica antes de filmar? 

A gente sempre faz algum tipo de laboratório, mas tento não me aprofundar muito senão perco aquilo que eu posso dar. Não sigo um método, trabalho muito mais na energia, no instinto. E é aí que a mágica acontece. Leio o roteiro uma vez, largo o texto, pego a cena no dia em que tenho de fazer, ou durmo com ela na noite anterior se for longa. Decoro na hora, pois tenho uma coisa de manter o frescor, de descobrir o texto naquela atmosfera, no cenário… Antes de rodar Maresia, conheci um perito em arte e me aproximei de uma amiga pintora. Foi curioso que pouco tempo depois, comprei de um vizinho alguns quadros cusquenhos, muito antigos e empoeirados, e a vivência no filme me ajudou no processo de limpeza dessas pinturas.

E a forma de o Vega pintar, com a aquarela amarrada ao braço?

Isso criamos na hora. É o que eu te digo. Se o ator vai filmar muito pronto, ele não se abre ao acaso. Quando visitei o departamento de arte, vi aquelas paletas de cores e encaixei meu dedo no furo que todas têm. Era um pedaço de madeira que meio que se encaixou no meu braço. Como o Vega pintava no barco, que balança, decidimos prender os pincéis junto à paleta, para ficarem firmes.

Maresia

Maresia

 

Você gravou as tramas separadamente?

Começamos com o Vega, que era barbudo, cabeludo e vivia na praia. Inclusive, há no filme a cena em que ele corta o cabelo, e usamos esse novo visual para o Gaspar. Isso estava no roteiro e foi a última cena do Vega.

Seu personagem em Elis, o dançarino Lennie Dale, foi fundamental na evolução da cantora como artista no palco, e esse é daqueles filmes em que parece que todos encarnaram. A Andreia Horta é de arrepiar. Como era o clima nos sets?

Tive uma preparação com a baliarina Lu Brites e fiz uma extensa pesquisa na internet, em vídeos, revi o documentário Dzi Croquettes, que amava. Mas como não tinha tempo para me tornar um dançarino para viver o personagem, investimos muito na postura, no gestual. Eles sentam diferente, estão sempre se alongando. Ensaiei com a Andreia e esse clima que você sentiu era uma energia que vinha dela. O Hugo (Prata) é excelente diretor, mas o que me contaminou foi a energia Elis dela. Andreia é minha amiga-irmã e havíamos conversado sobre Elis e Gonzaguinha anos atrás, sem sonhar que faríamos esses personagens no cinema. Ela sempre foi fanática por Elis e eu por Gonzaguinha.

No filme, Dale é o elo de Elis com a ditadura, porque ele é preso, e nessa fase a trama canha cunho social.

Sim, ele é um sopro nesse sentido. Ao mesmo tempo em que era a consciência política, era também a luz, a segurança, o ombro amigo da Elis. E sou essa pessoa também na vida da Andreia.

Além de Lennie Dale, você interpretou Gonzaguinha, Raul Seixas e Paulo Coelho. Tem apreço especial por personagens reais?

Pelo Gonzaguinha, sim. Cheguei a curtir Raul e ler um livro do Paulo Coelho, mas são pessoa que passaram na minha vida e que aprendi a gostar e respeitar depois de tê-los interpretado. Mas o Gonzaguinha foi uma surpresa da vida, um presente que só pode ter vindo dele. Porque sou apaixonado pelo Gonzaguinha desde moleque. Meus  amigos escutavam Legião Urbana e Titãs, e eu era do Gonzaguinha, ninguém entendia. Era uma ligação muito forte.

Então deve ter sido o mais desafiador de representar?

Sabe que não? Foi o Paulo Coelho. Era um personagem longe de mim e entrei em uma frequência que só conseguiria fazer se misturasse um pouco de mim e dele. Foi difícil. Também tinha a questão da maquiagem pesada… Gonzaguinha foi uma experiência indescritível. Um dos momentos mais importantes da minha vida.

Elis

Elis

E o médico de Sob Pressão? Eu morro de aflição de sangue e vocês parecem colocar a mão na massa ali. Como foi o comando do Andrucha?

O Andrucha é muito detalhista, perfeccionista. Então repetíamos as cenas muitas vezes, porque há sequências cirúrgicas em que você tem de saber pegar os instrumentos e seguir um procedimento padrão. Havia médicos ali com a gente como consultores. Claro que usamos próteses e não pessoas (risos), mas era um universo em que precisamos nos aprofundar. Visitamos hospitais e emergências e fiquei observando tudo. Também tenho aflição e quase desmaio com essas coisas, mas, quando estou vestido de um personagem, acontece um fenômeno comigo: eu perco o medo, tudo é possível. Como se tivesse uma redoma que me protege e adentro em um universo que é o oposto de mim, como o fato de nadar em Maresia.

A questão da saúde pública é um problema ainda sem solução no Brasil, e bem explorada no filme.

Quando você assiste a Sob Pressão pode achar que estamos exagerando, mas é muito pior do que está no filme. Aquela realidade de chegar gente baleada ao subir o morro é real. No dia da exibição no Festival do Rio teve um tiroteio no complexo do lado de Copacabana. E uma providência que tomei depois desse filme foi fazer um plano de saúde.

Sob Pressão pede continuação, ou melhor, pede um seriado, porque fica muito a se explorar de cada personagem. Cogitaram essa possibilidade?

Olha, acho que teremos surpresas, só isso posso dizer (risos).

Seu primeiro longa foi O Homem Que Copiava, de 2003, e nesses 13 anos foram quase 20 filmes. E você ainda se divide entre cinema e TV. Como consegue?

Sabe que fui me pesquisar outro dia e também me impressionei (risos)? Agora aceitei que faço parte de uma geração de atores e estou em um momento muito pleno. Aos 40 anos, estou no lugar onde queria, com um filho lindo de 1 ano e 8 meses, com minha família, minha horta… Nunca deixei de ser quem sou e não tenho ambição de ser diferente. É um dos momentos mais maravilhosos da minha vida.

 

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