ENTREVISTAS ESTREIAS

Vladimir Brichta revela sua face obscura como Bingo: O Rei das Manhãs

Quem era criança na década de 1980 sabe quem é o palhaço Bozo, apresentador do programa infantil matinal exibido pelo SBT até 1991. Bozo Bozoca Nariz de Pipoca era o nome inteiro do personagem, que veio importado da TV americana e ganhou fama mundial. Em dez anos, 12 atores deram vida ao palhaço na versão brasileira. Um deles, Arlindo Barreto, se jogou em uma espiral de autodestruição avassaladora, enquanto fazia a criançada dar risadas. É essa história nada infantil que inspirou Bingo: O Rei das Manhãs, uma produção que transporta o público para os bastidores da televisão daquela década e tem Vladimir Brichta hipnótico em uma atuação visceral.

O diretor Daniel Rezende tinha 5 anos quando Bozo estreou, em 1980. Indicado ao Oscar por Cidade de Deus, o premiado montador de Tropa de Elite 2, Diários de Motocicleta e Ensaio Sobre a Cegueira estreia na direção de longa-metragem com um projeto desafiador. Primeiro, por ser um filme de época. Segundo, por se basear em uma história real. No filme, o protagonista é Augusto Mendes (Vladimir Brichta), um ator de pornochanchadas que sonha com o sucesso em telenovelas em um grande canal. Sua chance, porém, surge em uma rede concorrente, à frente de um programa infantil. O sucesso é relâmpago. Mas, por contrato, ele não pode revelar sua identidade e permanece anônimo longe das câmeras. Esse paradoxo o leva a uma rotina repleta de excessos nos bastidores e o afasta das pessoas que o conhecem de verdade, como o filho Gabriel (Cauã Martins), a mãe e ex-atriz Marta Mendes (Ana Lúcia Torre) e Lúcia (Leandra Leal), sua produtora e interesse amoroso.

Brichta e Rezende nos sets

“Quando se retrata uma história real, a não ser que seja um documentário, não tem como não haver modificações e em Bingo trocamos inclusive o nome do palhaço e do protagonista”, afirma Rezende à PREVIEW. “Embora a essência seja fiel e respeitosa à vida do Arlindo, fundimos personagens, acontecimentos, mudamos a ordem de fatos e inventamos coisas.” O primeiro a enxergar o potencial da história para o cinema foi o produtor Dan Klabin, da Empyrean Pictures, parceira da Warner Bros. Pictures e da Gullane no projeto. Foi ele que mostrou a Rezende a reportagem O Palhaço de Deus, em que a jornalista da revista Piauí, Raquel Freire Zangrandi, acompanha o hoje pastor evangélico em seus cultos pelo País, enquanto o questiona sobre o passado como Bozo. “Assim que li a matéria, comecei a pesquisar e encontrei um cara que realmente viveu muitas vidas numa só”, conta Rezende, que envolveu o roteirista Luiz Bolognesi no trabalho. Os dois se conheciam de As Melhores Coisas do Mundo, da cineasta Laís Bodanzky, que Bolognesi escreveu e Rezende montou.

PICADEIRO

“A produção trata de vários assuntos e um deles é a busca pela fama, pela celebridade”, analisa o diretor. “Essa busca incessante pelo holofote é um tema atual e nosso recorte foi o grau máximo, que é o ator, por ter a exposição de corpo, de mente, de pensamento, de fala. O aplauso é o máximo de reconhecimento.” No filme, Augusto é filho de uma atriz que foi muito famosa (Arlindo Barreto é filho de Márcia de Windsor). Acompanhou a luta da mãe pelo holofote e viu também o que é perder esse holofote. Seu caso é mais trágico porque quando ele finalmente alcança a fama, não pode se revelar porque está sob uma máscara. Bingo é um filme apimentado, mas Rezende pondera que nada é explícito. “Há sexo, mas não se vê exatamente, há mais sensualidade do que sexo. Mesmo o consumo de drogas está ali no canto, um quase cheiro… O que é pesado não é a droga ou o sexo, mas como isso afeta o protagonista”, afirma.

Estava tudo certo para Wagner Moura interpretar o ator eclipsado pelo personagem, mas a agenda de filmagens da série Narcos obrigou-o a deixar o projeto. Foi o próprio Moura que sugeriu o nome de Vladimir Brichta, de Muitos Homens Num Só e Real Beleza. “Ele, Vlad e Lázaro (Ramos), que vieram da Bahia, são muito amigos, um trio”, conta Rezende. “Vi o brilho em seus olhos quando sentamos para falar do Bingo. Acompanhava sua carreira e sabia de seu potencial tanto na veia cômica quanto na dramática, mas talvez não o tivesse visto em um papel tão complexo.” E bota complexo nisso.

“De fato entrei nesse projeto disposto a me entregar. De certa maneira, me reconheci nele, me reconheci um pouco no pai, no artista com seus conflitos e realmente tentei fazer com que tivesse essa dimensão humana, trágica e, eventualmente, patética. Eu persegui isso”, afirma Vladimir Brichta à PREVIEW. “Entendi que esse personagem não era uma figura dramática no sentido de consciência da sua tragédia. Ele persegue seus ideais, seus desejos, mas sem a tomada de consciência. Isso faz dele trágico e patético também.”

Durante a pré-produção, o ator mergulhou no universo do circo com a ajuda dos atores Fernando Sampaio e Domingos Montagner, fundadores da companhia teatral La Mínima. Os dois fazem participações no filme, um dos últimos trabalhos de Montagner, falecido no ano passado. “Eu precisava experimentar, perder o pudor e reconhecer o palhaço em mim”, diz Brichta. “O Domingos era uma chancela, me permitia a ousadia de achar que eu poderia ser galã e palhaço ao mesmo tempo. A gente nunca conversou sobre isso explicitamente, mas me parecia claro que por ele ser um pouco mais velho e por ser um palhaço, que viveu só como palhaço um tempo, era uma passada de bastão, o reconhecimento de um igual. Foi um encontro muito feliz.”

Domingos e Fernando colocaram o “aluno” em um picadeiro de verdade, durante uma apresentação na Cidade Tiradentes, bairro da periferia paulistana, sem o público ter conhecimento da presença do astro. “Foi uma experiência maravilhosa”, recorda o ator. “As coisas correram bem, as pessoas realmente se divertiram e saí de lá revigorado.”

Leandra Leal e o protagonista

CULTURA POP

Um dos desafios da produção foi recriar os anos 1980 com toda a sua exuberância. “Acho que fizemos excelentes filmes olhando para problemas econômicos e sociais, mas falta à cinematografia nacional um olhar sobre a nossa cultura pop”, afirma Rezende. “Queria fazer um filme humano, de personagem, mas cuja roupagem retratasse a cultura pop dos anos 80, que é muito rica, colorida, brega.” O cineasta quer jogar a plateia naquela década visualmente, sensorialmente e musicalmente. A trilha sonora também faz o espectador viajar no tempo. Entre outras, ouve-se “Humanos”, da banda Tokyo, “Casanova”, de Ritchie, “Serão Extra”, do Dr. Silvana & Cia, “Televisão”, do Titãs, “Tudo Pode Mudar”, do Metrô, e “Uni Duni Tê”, do Trem da Alegria. Além, claro, de “Conga, Conga, Conga”, com a atriz Emmanuelle Araújo homenageando Gretchen.

Nostálgicos identificarão objetos de cena, como brinquedos e edições da finada revista Manchete. “A direção de arte tinha de atentar aos detalhes para evitar que o cenário tomasse o primeiro plano, já que nos anos 80 tudo é muito colorido e exagerado. Não podia ofuscar os personagens”, explica Rezende. Assim como o diretor, Brichta cresceu naquela década. “Assisti muito à TV, acompanhei atrações infantis, programas de auditório, de música, e vi muita novela. Ainda me lembro, então a pesquisa acaba sendo um recordar sem o olhar ingênuo da criança que eu era”, diz. “Ouvi músicas da época para que pudesse me conduzir para aquele lugar e isso tudo foi estudado para trazer os anos 80 de volta, mas também o que é absolutamente atemporal, que são as relações humanas, esses afetos inerentes a gente desde que a humanidade existe. O desejo de aceitação, o amor, a ausência, a culpa.”

Outro grande esforço foi o de mostrar os bastidores da televisão com autenticidade. Principalmente, nas gravações do programa do Bingo, que tiveram plateia lotada de crianças e equipamentos antigos em pleno funcionamento. A produção encontrou nos estúdios da TV Cultura, em São Paulo, o cenário ideal. “No canto do auditório havia um baú de acrílico cheio de cartas dos fãs do Bingo, e uma das figurantes me chamou e perguntou o que era”, lembra Rezende. “Para ela, não fazia o menor sentido uma caixa cheia de cartas. Não faz parte do seu universo.” O diretor mostrou o filme pronto para poucas pessoas (PREVIEW já assistiu!) e uma delas fez um comentário que já validou todo o projeto. “Havia uma garota de uns 17 anos que, depois de assistir, virou pra mim e disse ‘Que engraçado, agora entendi mais minha mãe e algumas de suas piadas’, e naquela hora senti que é para proporcionar vivências assim que a gente faz cinema.”

 

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