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O Fantasma da Sicília em streaming: Veja entrevista com diretor

Em 23 de novembro de 1993, Giuseppe Di Matteo, de 12 anos, foi sequestrado por integrantes da Cosa Nostra para fazer com que seu pai, o mafioso Santino Di Matteo, parasse de colaborar com as autoridades. O desaparecimento do garoto, que ficou 779 dias nas mãos dos raptores, chocou a opinião pública italiana na época, mas logo foi esquecido. Não pela dupla de cineastas Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, que resgata essa história em O Fantasma da Sicília, segundo longa da parceria e que neste ano se tornou a primeira produção italiana a abrir a Semana da Crítica no Festival de Cannes.

Adaptado do conto Un Cavaliere Bianco, de Marco Mancassola, o filme já está disponível em streaming, nas plataformas Now, Google Play, Vivo Play e iTunes. Narrado como uma fábula gótica, o drama do sequestro se mescla com a fantasia pelo olhar de Luna, a menina que estava enamorada de Giuseppe e fica obcecada em descobrir seu paradeiro. Em conversa com PREVIEW, o diretor Antonio Piazza explica que a personagem é fictícia. “Seria insuportável contar essa tragédia sem um toque de fantasia”, ele diz.

É uma história muito triste a que vocês contam em O Fantasma da Sicília. Por que trazê-la para a tela grande?

ANTONIO PIAZZA – É muito dolorosa e real. O filme é inspirado em um caso ocorrido na Sicília há 20 anos. Eu e Fabio somos dessa região e a década de 90 talvez tenha sido o período mais terrível de nossa história, por causa da guerra da máfia, mas esse evento específico foi o epítome do horror. Eu ainda não conhecia Fabio, mas ambos deixamos a Sicília depois disso, porque naquele momento houve um desespero que tornou impossível viver lá. Por coincidência, nos mudamos para o norte da Itália e foi ali que nos conhecemos. O caso ficou muito famoso, mas aos poucos foi completamente esquecido. O filme vem contar essa história para a nova geração. Mas decidimos que só seria possível fazer a partir do conto de Marco Mancassola, que nos deu a chave ao transformá-lo em um conto de fadas gótico, porque a realidade apenas seria insuportável. É uma reescrita através da fantasia.

Tiveram acesso a muitos documentos da época e chegaram a contatar a família?

Fizemos uma longa pesquisa porque os raptores foram presos e se tornaram colaboradores da polícia. Então contaram todos os detalhes dos 779 dias do sequestro. O que é irônico, porque tudo isso aconteceu como retaliação ao pai de Giuseppe, que era da máfia e se tornou informante. Havia milhares de páginas de transcrição do julgamento, além de livros escritos pelos próprios criminosos. No começo, decidimos não procurar a família, porque queríamos manter nossa liberdade. É tudo muito doloroso porque descobrimos que a família não procurou a polícia durante o sequestro e tentou resolver o caso por conta própria, o que pode ter causado o desastre. Foi um grande erro. Chegamos a falar com o irmão caçula, que achou melhor não assistir ao filme para não sofrer demais, mas ele concorda que é uma obra importante para manter viva a memória de seu irmão.

Luna é uma personagem real?

Não, ela é fictícia. Depois do desfecho do sequestro, seus colegas na escola fizeram uma manifestação em sua homenagem pelas ruas da vila em que ele vivia e há uma imagem de duas garotas com cartazes à frente do grupo. Essa foto nos inspirou.

Não deve ter sido simples para os atores juvenis interpretarem personagens tão sofridos.

Foi um processo muito longo, nove meses de seleção e centenas de crianças. Fizemos três meses de workshops com o elenco antes de filmar. Tudo precisava ser feito de forma lúdica, em ritmo de brincadeira, porque a leitura do roteiro foi dura, mas fizemos tudo para protegê-los da dor. Foi um jogo sério, mas nossa abordagem sempre foi essa, um jogo.

Seu filme anterior, Salvo, também é sobre a máfia. Esse deve ser um tema caro a você e Fabio como cineastas.

Viemos ao Brasil para apresentar Salvo no Festival do Rio de 2014. Nós crescemos nos anos 1990 e foram tempos difíceis para quem vivia na Sicília. Havia muitas vítimas, era uma espécie de guerra civil secreta, um Vietnã local. Para a geração de cineastas e escritores que vieram da Sicília, é preciso lidar com essa realidade, assim como cineastas americanos têm a necessidade de retratar o Vietnã.

 

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