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Perdemos Alfredo Sternheim

Morreu no dia 6 de dezembro, aos 76 anos, o cineasta Alfredo Sternheim. A causa da morte foi um ataque cardíaco fulminante, segundo fontes próximas ao diretor e escritor.

Alfredo começou sua vida de cinéfilo em São Paulo, com jornadas pelo coração da cidade em busca de todo tipo de filme, exibidos no circuito comercial ou em mostras especiais – isso em uma época antes do advento do vídeo, quando as chances de ver filmes alternativos eram muito limitadas. Foi com essa vontade hercúlea que montou um repertório robusto.

Foi para atrás das câmeras nos anos 1960, como assistente de direção do clássico Noite Vazia (1963). Depois engrenou uma carreira como diretor que gerou títulos como Anjo Loiro (1973), filme que lançou Vera Fisher aos estrelato. Com a decadência do cinema brasileiro antes da retomada nos anos 1990, Alfredo realizou filmes de sexo explícito, com destaque para Sexo dos Anormais (1984), que trazia Claudia Wonder no elenco. A presença de uma travesti em um roteiro fora do posto de alívio cômico foi um pioneirismo de Sternheim.

A condição de cineasta tornou-se insustentável nos anos 1980, o que levou Alfredo ao mundo das letras. Escreveu romances e foi o único (salvo engano) a emplacar uma autobiografia na Coleção Aplauso, intitulada Um Insólito Destino. Os livros desse selo são biografia de figuras ilustres da cultura brasileira escritos por autores de respeito. Alfredo Sternheim também foi crítico de cinema, com passagem pela revista SET, onde alguns repórteres da PREVIEW foram colegas de trabalho dele.

Com todo esse calibre e em um meio de egos inflados, Alfredo Sternheim poderia ser chamado de Mestre Sternheim ou Dom Alfredo, ou qualquer outro apelido pomposo e vazio. Pessoa simples, atendia aos amigos e colegas por Alfredinho. De fala manda, defendia suas opiniões sobre cinema, política e sociedade com muita sobriedade. O papo era tão bom e educativo que era impossível não se deixar influenciar. Eu mesmo roubei-lhe a expressão “plano de nuca” que usava para falar jocosamente do cinema dos irmãos Dardenne e seus seguidores. A postura elegante de Alfredinho possibilitou que fosse muito querido por todos, a despeito das posições ideológicas.

Alfredinho deixará saudades entre os críticos. Antes das sessões para a imprensa, ficaremos com vontade de ouvir mais de suas histórias inusitadas (que poderiam incluir desde “preparação de elenco” para filme pornô, passando por comprar seus próprios filmes em bancas de DVDs piratas, até ameaça de strip tease para receber pagamento de contratante caloteiro). Teremos anseios pode suas opiniões certeiras em tempos tão incertos. Perdemos um dos grandes. Ganham os cinéfilos que agora habitam a cena pós-créditos desse filme que chamamos vida.

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